UNS RASCUNHOS SOBRE A HISTÓRIA DO MOVIMENTO
Júlio Bueno
Corria o ano de 2009. A rede social no Brasil que reinava soberanamente era o Orkut. Muita gente que vai ler isso nunca teve contato com o Orkut. A graça daquela rede era ser amparada em comunidades, que eram fóruns com uma infinidade de temas. Entre essas comunidades, frequentei durante um tempo comunidades sobre separatismo paulista e sobre direita política. Separatismo e direita são duas coisas que sempre se confundiram.
Ali discuti muito. O interesse meu pelo separatismo era de antes da internet. Costumo dizer que eu me tornei separatista por causa do futebol. Nos anos 2000, o São Caetano foi um fenômeno do esporte bretão. Vice-campeão da Copa João Havelange, Vice-campeão da Libertadores, Campeão Paulista, muita glória para um time relativamente novo e de uma cidade pequena, São Caetano do Sul. Aquilo chamou a atenção do jovem Júlio que se preocupava cada vez mais com futebol e política. Um dia tive um insight, Santo Amaro, que já havia sido uma cidade (até 1935, quando Getúlio Vargas arrancou a nossa autonomia, como uma punição pelo engajamento dos santoamarenses na Revolução de 1932), que tinha um território maior, uma economia maior e população maior, se voltássemos a ser um município autônomo, poderíamos ter um clube de futebol poderoso, como o São Caetano. Entendi ali que o separatismo era a solução. Da separação de Santo Amaro para a separação de São Paulo do Brasil, por analogia, foi um pulinho. Foi na internet que esse meu pensamento obteve um megafone para ser exposto.
No Orkut comecei a procurar comunidades sobre o separatismo e sobre São Paulo. Havia a Estado de São Paulo (que não tinha mais moderação e era um ringue de luta livre entre trolls), havia a São Paulo Independente, do MSPI (era pequena, não sei quem era o criador dela), a do MRSP, a Poder Paulista (a mais séria de todas na época). Havia a Orgulho Paulista. Era bastante comum a presença de perfis de supremacistas brancos nessas comunidades. Hoje, essas pessoas sumiram do meio, skinheads, white powers, neonazistas, carecas, essas pessoas participaram ativamente durante muito tempo do que pode ser chamado, em sentido amplo, de "movimento separatista paulista", desde os anos 90, quando não existia internet ainda. Sempre houve uma divisão sobre qual patriotismo seguir entre esses grupos. Haviam os nacionalistas separatistas (paulistas e sulistas) e haviam os nacionalistas integralistas. Não convivi diretamente com essas pessoas por muito tempo, mas, tenho a impressão que a corrente dos nacionalistas separatistas sempre foi minoritária ou a segunda opção para as pessoas ligadas ao que a imprensa sempre chamou de "extrema direita". No Orkut dessa época, nas comunidades, havia gente de todo tipo, desde esses tipos genericamente chamados de skinheads, passando por malufistas, tucanos, liberais de todo o tipo, tradicionalistas culturais (nativistas paulistas), gente que gastava o tempo pentelhando por política (trolls), malucos de toda a sorte. Foi nesse mesmo ambiente, que em paralelo, grupos políticos que hoje estão mais definidos também estavam se formando, como os libertários, depois os anarco-capitalistas, os neo-conservadores seguidores do Olavo de Carvalho, tradicionalistas esotéricos (guenonianos e evolianos). O separatismo paulista na onda digital cresceu com a circulação da ideia entre essas pessoas. O separatismo paulista era mais uma ideia nesse meio de debates. Sempre a presença de esquerdistas no separatismo foi exótica. Conheci pouquíssimos desde aquela época. O internacionalismo rasteiro da esquerda superficial sempre deixou de bandeja o tema do separatismo para o centro e a direita.
Não conheci pessoalmente o João Nascimento Franco. Mas, falei em viva voz com o outro grande nome teórico do separatismo paulista contemporâneo, o engenheiro Braz Juliano. Descobri o telefone dele no Facebook, creio que em 2014 ou 2015 e liguei pra ele. Braz já era muito avançado em idade naquela época. Hoje ele é falecido. Na nossa ligação ele me tratou de maneira absolutamente filial. Me chamou de "Neto" a conversa toda. Falava com muito orgulho sobre a grande realização de sua vida, que foram os planos das galerias de águas pluviais e esgotos, desenvolvido por ele desde a época do RAE: Repartição de Águas e Esgotos, um antecessor da SABESP. Foi uma pena não ter tido a oportunidade de conversar demoradamente com o João Nascimento Franco. Franco, como era um jurista muito reconhecido, advogado militante e, pelo que ficou anotado em Os fundamentos do Separatismo, uma mente muito lúcida em matéria de política. Creio que ele estaria ombreado com nomes do liberalismo político, como o pessoal do Instituto Liberal, do Rio de Janeiro, como Donald Stewart Júnior ou como um embaixador Meira Penna. Aliás, Nascimento Franco cita textualmente Meira Penna como um apoiador do separatismo paulista e sulista.
Conheci muito bem algumas pessoas mais antigas do que eu no separatismo. Mais antigas por alguns anos. Um deles, Roberto Tonin, que até hoje anda por aí com atividades ligadas à memória paulista. Ele se "apartou" voluntariamente de nós em 2016, na época da campanha da Frente Bandeirante. Deixo frisado o registro, ele se apartou voluntariamente. Não foi expulso do MSPI, ao contrário, eu queria que ele comandasse um conselho consultivo do Movimento e cheguei a sugerir isso na época, coisa que ele não se interessou.
Outra pessoa mais antiga que eu no separatismo que conheci e que mantenho contato ainda é o Braz Leme, figura emblemática, o veterano atual do separatismo, foi o responsável por nos colocar nos primeiros passos da política partidária, quando eu e mais algumas pessoas se filiaram ao Partido Verde, por sua orientação, em 2009. Apesar de ter sido membro por muitos anos ao PV, hoje ele é um apoiador do Bolsonaro e um convicto anti-petista. Jamais deixou de ser separatista. Até onde sei, Braz está no separatismo desde a época em que MRSP teria surgido no Orkut, como uma comunidade -- aparentemente de teor jocoso -- de um sujeito que queria ser rei de São Paulo (e o sujeito criou um "movimento" que tem por nome república, sendo monarquista).
Terceira pessoa que conheci e que é mais antiga do que eu no separatismo é o Cássio Forcignanò, que é o autor do livro Separatismo Paulista. Cássio, assim como o Braz Leme, pelo que consta, está na causa desde 2005. Ainda é figura presente e ativa nas discussões online e em reuniões e passeatas públicas.
Quando eu entrei no separatismo, em 2008, as referências eram o site do Pampa Livre, ainda no ar praticamente inalterado (https://www.pampalivre.info/), o antigo site do MSPI, cuja autoria nunca descobri e os blogs mantidos pelo Celso Deucher. No site do Pampa Livre havia a íntegra do livro do João Nascimento Franco escaneado em pdf. Li ele por ali. No site do MSPI e também da Liga de Defesa Paulista haviam textos bons, excertos do João Nascimento Franco e alguns textos do "desaparecido" Tiago Bolivar. Esse Bolivar fez a ligação entre o separatismo paulista e o pensamento de Paulo Prado, ensaísta e financiador da Semana de Arte Moderna de 1922. Bolivar é uma pessoa que nunca consegui localizar. Reza a história que teria abandonado a ideia do separatismo quando entrou para o meio acadêmico. Mandei e-mails, tentei adicionar em redes sociais. Zero resposta. Imagino que realmente possa ter abandonado o "pensamento juvenil" ou tenha medo da oposição radical das universidades. A primeira ideia me faz mais sentido. Essas eram as fontes que tínhamos para discutir as bases e as teorias do separatismo paulista. Me alegro em dizer que várias outras referências sobre o separatismo fui eu quem colocou novamente em circulação, como o pensamento de Alfredo Ellis Júnior, Alberto Sales, Ernani Silva Bruno, do Sérgio Buarque de Hollanda, de referências sobre fatos da época de Adhemar de Barros, narrados pelo Darcy Ribeiro e outras referências, todas elas saíram das minhas leituras e estudos sobre São Paulo. E é um campo ainda virgem, quase inexplorado. A historiografia e o ensaísmo paulista clássicos ainda precisam ser revisitados. Não sou eu quem fará esse processo, mas, tenho a certeza que deixei alguns caminhos apontados para aqueles que lerem meus artigos e publicações neste site do MSPI.
Em 2009 fui presencialmente pela primeira vez em um evento separatista. Na caminhada do dia 09 de Julho, saindo do MASP até o Ibirapuera, para assistir o desfile. Lembro de vários rostos daquela época, mas não bem dos nomes. Cássio Forcignano, Giovani Pagliusi, John (um moço metodista de Guarulhos), Fabiana, Tonin, Geovana Lopes, Marcelo Emídio, Jorge VitZac (já falecido), Diógenes (que tem um canal de rock famoso hoje no Youtube), Braz Leme, havia mais gente, mas não lembro bem quem. Desde esse ano, até hoje, todo 9 de Julho frequentamos o mesmo restaurante na Brigadeiro (hoje se chama Farrapos). Nos demais anos conheci muita gente: Luciana Toledo e seu marido, Pedro Paulista, Denis Liossi, Daniel Simões, Geremias (não lembro o sobrenome), Carlos Andrea (que era monarquista e separatista, depois tendo abandonado o separatista e ficado só como monarquista), Vinícius Simões (já falecido), Lane (uma paraense que era amásia do Paulo, ex-presidente do MRSP), Wagner Godoi, da região de Pindamonhangaba, Emerson e Eduardo Souza, também de Pinda, aquele William marqueteiro, tudo isso na época do MRSP ainda. Se eu puxar pela memória eu lembro de mais gente.
Quando fizemos o estatuto do MRSP, no fim de 2009, ficou estabelecido que o Paulo seria o presidente e a Luciana a vice. Ai teve o famoso caso da aparição no Superpop, da Luciana Gimenes. No programa foram Tonin e a Geovana e o Paulo quis ficar num estúdio separado. O programa foi uma esculhambação total. Nenhum dos três tinha tônus para participar de um programa popular. Eram pessoas pouco comunicativas. Foram jogados aos leões ou melhor, aos palhaços grotescos do entretenimento emboaba: Silvia Design e Batoré (acho que até o Régis Tadeu estava nesse dia). O vídeo ainda tinha no Youtube. Aquilo foi um desastre do ponto de vista de linguagem, de mensagem, ainda que pudesse ter atraído alguém para a ideia (eu duvido, jamais alguém, fora os convertidos, disse ter visto o aberrante programa).
Ali na Vila Esperança eu devo ter ido menos de dez vezes. Era nos fundos de uma casa bastante antiga. O Paulo e a mulher dele meio que estavam morando ali. Era tudo muito simples e nós dávamos algum dinheiro para ajudar a custear o espaço. Acho que cada um pagava r$ 50,00. Acho que eu paguei algumas vezes. Não lembro com fidedignidade. Os documentos do registro -- tentado, mas não concluído -- do MRSP foi feito ali. O advogado responsável foi o Marcelo Emídio, figura que sumiu completamente do radar pouco depois. Sei que ele é serventuário do poder judiciário em São Paulo. Me lembro que ele contava histórias da loja maçônica que frequentava, em Campinas (daí o apelido dele, "Campinas"), onde supostamente José Serra teria frequentado e lhe teria confessado ser a favor do separatismo (se é verdade, não sabemos, mas, espalhamos) e histórias de quando teria trabalhado para o site do Olavo de Carvalho, o Mídia sem Máscara. Era um sujeito culto. Imagino que o medo e o interesse pela vida privada tenha feito ele sumir da causa.
Acho que essa sede não durou um ano. Pouco tempo depois, para poder se envolver mais com o Partido Federalista (a ladainha do envolvimento com o partido federalista é antiga -- o seu fundador, Thomas Korontai chegou a cercar movimentações do Sul é o meu país em Curitiba no começo dos anos 90 -- o partido, é claro, nunca deu certo), o Paulo deixou a presidência e passou ela para o Wagner Godoi, pessoa simpática e competente, que pude ver duas vezes em São Paulo, sendo uma delas no Palácio da Polícia Civil, na rua Brigadeiro Tobias, quando acompanhei ele e o Paulo, por ocasião de uma acareação de um processo em que a Fabiana estava envolvida (ela e um outro rapaz, acho que se chamava Caio César, de Santo André) por terem mandado e-mails grosseiros para a escola de samba Acadêmicos do Tucuruvi. Não sei o que ali foi dito. Eu estava presente apenas na antessala aguardando os dois. Acabado o depoimento, cada um seguiu seu rumo. Me recordo deles dizerem que a delegada tinha aberto os e-mails dos investigados na frente de todos. Sei que pouco tempo depois o Wagner entregou a presidência. Assumiu a vice, Luciana Toledo, que foi a responsável pela mudança do MRSP de movimento separatista paulista para um movimento libertário. Eu era naquela altura presidente municipal do MRSP em São Paulo. Poucos meses depois eu me desliguei do MRSP, por causa da faculdade e da doença terminal do meu pai. Não foi ao 09 de Julho de 2011. Meu pai faleceu em novembro do mesmo ano. Foi um período bastante difícil para a minha família. Me desliguei das atividades presenciais, mas, continuei sendo um pessoa ouvida, especialmente entre pessoas que não se deixaram levar pela ladainha libertária. Era época do e-mail, embora o Orkut ainda sobrevivesse e o Facebook começasse seu reinado. Nessa época eu fui um dos pioneiros na divulgação do separatismo paulista no Twitter. O Pedro Paulista também (e era ele o administrador do perfil do MRSP no Twitter), além do Marcelo Petazoni, que continua por aí. Quem me acompanhou na saída de vez do MRSP foi o Cássio, a Ana, o Giovani e, lateralmente, o Tonin. Em algum momento, lá pra 2013, tive um estalo de recriar o MSPI, que estava sem comando desde a morte do João Nascimento Franco.
No meio disso, acho que em 2012, talvez (provavelmente ela vai se manifestar em algum comentário), a Fabiana criou o manifesto São Paulo para os Paulistas, que tinha um abaixo assinado com denúncias sobre o comportamento xenofóbico contra São Paulo. Ela estava correta sobre o teor, mas, a forma agressiva do manifesto e o comportamento da imprensa da época trataram esse manifesto e abaixo assinado como se fosse uma petição a favor da volta da escravidão. O histerismo da imprensa era pior do que hoje. Por incrível que pareça, sinto que hoje a mais espaço para falar abertamente sobre separatismo. Apesar de a legislação não ter mudado desde então sobre o tema, nunca fomos prejudicados pela justiça por nenhuma ação que tenhamos feito. Sempre manifestamos nas ruas, com anuência da Polícia Militar. Na época, a imprensa gritava mais. Fabiana nunca foi formalmente filiada como membro do MRSP (até a época em que lá estive) ou do MSPI. É do time do "eu sozinho". Ela nessa época era muito acompanhada por um tal William, que era aqui da zona sul e sempre nos pareceu um liberal deslumbrado, desses tipos marqueteiros que fariam sucesso no Partido Novo ou grupos bolsonaristas liberais. Quando começávamos a nos reunir para pensar o futuro da causa, que iria redundar na renovação do MSPI, ele esteve presente em uma reunião que fizemos no Centro Cultural São Paulo, na Vergueiro.
CON|TI|NU|A
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