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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Recomendações de leituras sobre a história dos Bandeirantes Paulistas.

Tomamos a liberdade de publicar aqui em nosso site uma listagem de obras, feita pelo ilustre membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, o dr. Victor Emanuel Vilela Barbuy, que, apesar das discordâncias ideológicas que mantemos com ele, sempre se mostrou ser um filho dileto da pátria paulista.


***

Segue uma lista (divida em três seções) das principais obras que li a respeito dos bandeirantes ou que contêm importantes páginas sobre essa estirpe de gigantes:

1. Obras históricas e/ou sociológicas
- Vida e morte do bandeirante, de Alcântara Machado;
- Raça de gigantes, de Alfredo Ellis Junior;
- O bandeirismo paulista e o recuo do meridiano, de Alfredo Ellis Junior;
- História geral das bandeiras paulistas, de Affonso d'Escragnolle Taunay;
- No tempo dos bandeirantes, de Belmonte;
- Marcha para Oeste, de Cassiano Ricardo;
- Entradas e bandeiras, de J. F. de Almeida Prado;
- Dicionário de bandeirantes e sertanistas brasileiros, de Francisco de Assis Carvalho Franco;
- Nobiliarquia Paulistana, de Pedro Taques de Almeida Paes Leme;
- História de São Paulo, de Tito Lívio Ferreira;
- Gênese social da gente bandeirante, de Tito Lívio Ferreira;
- Paulística, de Paulo Prado;
- Os paulistas, de João de Scantimburgo;
- Populações meridionais do Brasil, de Oliveira Vianna;
- Evolução do povo brasileiro, de Oliveira Vianna;
- Instituições políticas brasileiras, de Oliveira Vianna;
- Formação da nacionalidade brasileira, de Oliveira Lima;
- História do Brasil, de Plínio Salgado;
- Como nasceram as cidades do Brasil, de Plínio Salgado;
- Nosso Brasil, de Plínio Salgado;
- Problemas brasileiros de Antropologia, de Gilberto Freyre;
- Continente e Ilha, de Gilberto Freyre.
- Traços da Economia Social e Política do Brasil Colonial, de Félix Contreiras Rodrigues;
- Formação brasileira, de Hélio Vianna;
- Estudos de História Colonial, de Hélio Vianna.

2. Romances:
- A muralha, de Dinah Silveira de Queiroz;
- A voz do Oeste, de Plínio Salgado;
- As minas de prata, de José de Alencar (sobre o bandeirismo baiano);
- O pajem negro, de José de Alencar (inacabado);
- O caçador de esmeraldas, de Hernâni Donato;
- A bandeira de Fernão Dias, de Paulo Setúbal.

3. Obras poéticas:
- Armorial, de Paulo Bomfim;
- A invenção do mar, de Gerardo Mello Mourão;
- Os bandeirantes, de Baptista Cepellos;
- O caçador de esmeraldas, de Olavo Bilac;
- Os Brasileidas, de Carlos Alberto Nunes;
- Martim Cererê, de Cassiano Ricardo.

​https://www.facebook.com/victoremanuel.vilelabarbuy/posts/2720224298088353

Quadro histórico de São Paulo colonial.

Verbete "São Paulo" do livro Informações Históricas sobre São Paulo no século de sua fundação, de Edith Porchat.

SÃO PAULO: (fundação e primeiros tempos coloniais) - Em 1549, enviado por Dom João III, chegou à Bahia o padre Manuel da Nóbrega, chefiando um grupo de jesuítas a fim de auxiliar os portugueses na obra de catequese dos índios brasileiros. Imediatamente, mandou o padre Leonardo Nunes fundar um colégio em São Vicente e, em 1553, nomeado provincial da Companhia de Jesus no Brasil, dirigiu-se também a São Vicente, onde, em dezembro do mesmo ano, chegavam José de Anchieta e outros jesuítas. Encontrando o litoral já quase todo habitado por portugueses inescrupulosos e índios escravizados , e verificando que os pais dos discípulos do Colégio de São Vicente moravam quase todos no interior, tomou por guia André, filho de João Ramalho, e rumou para o sertão à procura de lugar mais adequada para o ensino. Descobriu no planalto de Piratininga a aldeia fundada por João Ramalho: Santo André reunindo às vezes vinte pessoas, entre missionários e curumins, que lá se iam educar. À entrada da choupana, uma esteira servia de porta. Dormiam em redes. O fogo, aceso para aquecer, fazia as vezes tanta fumaça no interior que, apesar do frio, os jesuítas preferiam estudar com os alunos ao ar livre. Comiam sobre folhas de bananeira, constando a refeição de farinha de mandioca e, raramente, de algum peixe ou caça. Os caciques Tibiriçá e de Caiubi mudaram-se com seus índios para as redondezas do Colégio, estabelecendo-se o primeiro lugar onde surgiu depois a rua Martin Afonso, hoje São Bento, e o segundo, para os lados da Tabataguera, hoje Tabatinguera. O arraial foi logo cercado por muros de taipa de pilão e estacada, construídos pelos principais moradores e pelos índios guaritas de atalaia e, de quando em quando, uma porta na direção de alguns caminhos principais. Mais tarde, com o desenvolvimento do povoado, os muros foram alargados. Os fundadores de São Paulo foram doze ou treze jesuítas, que até hoje não ficaram bem identificados, por falta de documentos. Seriam eles, provavelmente, entre padres e irmãos da Companhia: Anchieta, Manuel de Paiva, Afonso Brás, Vicente Jácome, Francisco Pires, Mateus Nogueira, Antônio Rodrigues, João de Sousa e Fabiano de Lucena. Em 1560, Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil, ao transferir os moradores de Santo André para a vila de São Paulo, aconselhado por Nóbrega, tinha em vista medidas econômicas, melhor abrigo contra os índios e posição mais adequada ao trabalho dos missionários. Além disso, considerava o local ponto de partida estratégico para as excursões ao Paraguai e ao interior do Brasil, como de São Paulo. Para defender os viajantes contra os contínuos assaltos dos tamoios, entre São Paulo e Santos, Mem de Sá determinou que se usasse o "Caminho do Padre José", assim chamado em homenagem a Anchieta, a quem se atribui erradamente a construção dessa estrada. Com o abandono da Vila de João Ramalho e o afluxo de portugueses do litoral o ambiente de São Paulo tornou-se desfavorável à catequese. Em 1561, Nóbrega e Luís da Grã, seu "colateral" na Companhia de Jesus, resolveram transferir o Colégio para São Vicente. Em 1562, índios guaianás, carijós e tamoios do vale do Paraíba, chefiados por Jagoanharo, sobrinho de Tibiriçá, pintados e emplumados, armados de arcos e flechas, assaltam a vila de São Paulo, com grande alarido, bater de pés, gritos e assobios. Foram repelidos pelos heroísmo de Tibiriçá. Em maio de 1563, Nóbrega, para negociar a paz com os tamoios, toma Anchieta entretanto conseguiu acalmar. Chamado a São Vicente, Nóbrega viu-se obrigado a deixar Anchieta como refém. Durante a permanência no aldeiamento inimigo, Anchieta compôs e docorou o famoso poema escrito na areia, dedicado à Virgem. Só voltou para São Vicente depois do armistício de Iperoig, realizado a 14 de setembro de '563. Por essa época, uma epidemia de varíola assolou Piratininga, fazendo numerosas vítimas e expondo a população à fome a miséria. Entre 1567 e 1570 Anchieta proporciona a São Paulo a representação do Auto da Pregação Universal, peça de sua autoria, escrita em parte em tupo e parte em português. Representada ao ar livre epidemia disentérica. Tamoios e franceses ainda tentam assaltar São Vicente, mas são repelidos. Repelidos são também os ataques de Edward Fenton e Tomas Cavendish à vila de Santos. Em meio a todo esse tumulto, São Paulo consegue desenvolver pequenas indústrias, como a de tecidos de algodão, chapéus de feltro e a da marmelada, que, em fins do século XVII, se tornaria uma das principais fontes de renda de Piratininga, chegando uma caixeta a ser vendida, mas minas, por preço equivalente a mais de uma grama de ouro. São Paulo cultiva trigo, cevada, uva, roseiras para a indústria de água de rosas e alguma cana de açúcar para o próprio consumo. A criação de gado toma certo incremento. Até o fim do século XVI, o paulista era pobre. A vila teria mil e quinhentos habitantes, com cento e cinquenta "fogos". O mobiliário das casas e tudo o que o cercava era primitivo e sem conforto. Panos de algodão, carnes, galinhas e mantimentos em geral eram a moeda corrente da época. Cada missa custava sete frangos. A vida era cara e difícil. O "edifício" do Senado da Câmara, pertencente a particulares, construído no lugar depois chamado de pátio de São Francisco, era uma casa coberta de palha que já desabara uma vez e fora reconstruída por alguns homens abnegados. O paulista vivia isolado, por não ter produção que interessasse ao estrangeiro. Ignorava o que ia ser pelo mundo. Evoluíra de maneira diferente e talvez por esse motivo se tivesse tornado altivo e independente, demonstrando personalidade e insubmissão. Os índios continuavam a perturbar a vida da capitania. Em 1590, inesperadamente irrompem em São Paulo os tupiniquins, devastando aldeias e queimando igrejas. Durante seias anos, Jerônimo Leitão, capitão-mor, lutou contra essas invasões. Os rios eram as melhores vias de transporte no planalto, por exigirem menos esforço e oferecerem mais garantia contra os ataques. Para chegar ao porto do rio Tietê, onde em 1700 foi construída a Ponte Grande (com 4 palmos de largura e orçada em 200$000), tomava-se uma canoa no Tamanduateí, no lugar chamado "porto geral" para povoação, "para o qual se descia por uma viela empinada" que ainda hoje conserva o mesmo nome e inclinação (ladeira Porto Geral). A língua falada entre os paulistas era mais comumente a "língua geral", que era o tupi adaptado pelos jesuítas. Só na primeira metade do século XVIII é que foi substituída pela língua portuguesa, apesar daquela ser preferida pelos velhos até fins do mesmo século. Explica-se esse fato pela convivência dos colonos com os índios, em geral empregados domésticos, ou, em grande parte, utilizados na lavoura. Havia grande diferença na educação dos dois sexos. Os homens aprendiam a ler, escrever e contar. As mulheres só sabiam cozinhar, lavrar a terra e fazer renda. Não era admissível a uma dona-de-casa ilustrar o espírito. Em 1597, os paulistas, com os Afonso Sardinha à frente, extraíram algum ouro de lavagem nas menias de Jaragua, Vuturana, Jaguaminguba, Ribeira de Iguape, Cananeia. Em 1599, com a chegada de dom Francisco de Sousa, governador-geral do Brasil, começam a interessar-se pelo luxo. As famílias mais abastadas tinham até criados de libré. A situação econômica tende a melhorar a partir de 1601, tornando-se a cultura de açúcar a maior riqueza do paulista, a até à primeira metade do século XVII. Nessa época, o traçado de São Paulo, embora rústico, era em linhas gerais o mesmo que o atual. O centro da cidade já formava um triângulo com as igrejas de São Francisco, São Bento e Carmo. A rua Direita chamava-se de Santo Antônio e, mais tarde, da Misericórdia. A de São Bento era chamada Martin Afonso, nome cristão do cacique Tibiriçá. Em 1628, os paulistas, com Raposo Tavares à frente. entregam-se à famosa caça ao índio. Cometem atrocidades, como aliás, em todo o mundo, o faziam os desbravadores do sertão. Era tão grande a sua fama de tirania que o vice-rei do Perú, propôs que, para tranquilidade da América do Sul se destruísse "a povoação de São Paulo", pelo número de crimes ali cometidos. A 13 de julho de 1640, os paulistas invadem o Colégio de São Paulo e expulsam os jesuítas de toda a capitania, considerando-os empecilho ao progresso da colônia, pois defendiam os índios e, assim, as fazendas não poderiam manter-se. Com a libertação de Portugal do domínio espanhol (1640), foram influenciados pelos castelhanos aqui radicados e aclamaram rei a Amador Bueno de Ribeira, que recusou o título e conjurou o povo a reconhecer dom João IV como verdadeiro soberano dos brasileiros. Algum tempo depois, a vida de Piratininga é perturbada pelas lutas políticas entre as famílias Pires e Camargo, verdadeiras guerras civis que só terminaram com a intervenção de Portugal. O paulista possuía terras, mas não tinha gente para cultivá-las. Era classificado pela quantidade de chão que possuía. Quem não tivesse uma sesmaria ficaria deslocado na sociedade,sem direito a cargo algum. Tudo girava em torno da propriedade rural, onde dominava o senhor de engenho. Traço característico do paulista era o respeito à palavra empenhadada. Os maiores negócios se resolviam apenas com uma promessa verbal que era religiosamente cumprida. Com a notícia do ouro fora do território, os bandeirantes atiraram-se pelos sertões, alargando as fronteiras do Brasil. Em1633, segundo as atas da Câmara, fazia-se dinheiro de ouro e prata em São Paulo. Em 1645, Salvador Correia de Sá e Benevides fundava em São Paulo a primeira Casa da Moeda instalada no Brasil, o que se devia talvez à importância das minas do Jaraguá. Por essa época, foi cunhado o "São Vicente", moeda de ouro paulista, cujo valor inicial era de um mil réis. Na segunda metade do século XVII, melhora o padrão de vida. Avultam os objetos de prata. Chegam as colchas da Índia; aparecem catres com cabeceiras torneadas, móveis de jacarandá, redes trabalhadas. O espelho já se tornara conhecido desde 1619. Os paulistas, porém, fascinados pelo ouro, ausentam-se por tempo indeterminado, abandonando a vila, que ficou habitada em grande maioria por mulheres, crianças e velhos. A falta de braços começa a fazer-se sentir na lavoura e na criação de gado. Ao lado de uma prosperidade fictícia, São Paulo entra em decadência, permanecendo nesse estado durante cem anos. Em 22 de março de 1681, por determinação do marquês de Cascais, a sede do governo da capitania passaria a ser na vila de São Paulo. Instalou-se porém somente a 27 de abril de 1683. Por essa época, começou a generalizar-se a palavra "paulista" para designar os filhos de Piratininga. Por carta régia de 22 de janeiro de 1698, a capitania de São Vicente foi separada do governo-geral do Estado do Brasil, sujeitando-se ao governo do Rio de Janeiro, devido à grande distância que ficava da Bahia, sede dos governadores-gerais. Em 1710, abrangendo os atuais Estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e parte do Rio Grande do Sul, até a colônia do Sacramento, foi, por ordem de dom João V, chamada de "Capitania de São Paulo", em substituição ao nome de "capitania de São Vicente". Em 1711,a vila de São Paulo foi elevada à categoria de cidade. Em 1720, para a maior facilidade de administração, Minas foi desmembrada de São Paulo, que veio a perder também outras partes de seu território, com exceção do Paraná. Em 1748 a capitania de São Paulo foi anexada à do Rio de Janeiro, até 1765, quando voltou a ser independente, sob o governo do Morgado de Mateus. Em 1758, o rei Dom José proibia, definitivamente, o cativeiro dos índios. Era um novo golpe contra a vida econômica de São Paulo, que desse modo, não poderia continuar a exploração das minas com tanta intensidade. Com o declínio da mineração em fins do século XVIII, foi iniciada a lavoura do café, formando-se em Campinas o primeiro cafezal (1809). O Paulista entrega-se então à agricultura. Cria gado. A vida de fazendeiro pacato e desconfiado do século XIX. Seus descendentes procuram estar em contacto com os europeus e adaptam-se à vida civilizada. Essa nova mentalidade fez do paulista primitivo o homem culto e evoluído dos nossos tempos. Em fins do século XVI, a vila de São Paulo, dentro da capitania de São Vicente, teria mil e quinhentos habitantes. Atualmente, a população da capital é de 11.128.848 habitantes, e, todo o Estado, cuja superfície é de 248.256 km², tem 33.069.900 habitantes. Nos últimos cinquenta anos, a população do Estado quadruplicou, fenômeno só comparável ao que se verificou nos Estados Unidos. O Estado de São Paulo é atualmente o maior parque industrial do Brasil e da América Latina. Cortado na capital pelo trópico de Capricórnio, limita-se ao norte com o Estado de Minas Gerais; a leste, com os Estados de Minas, Rio de Janeiro e o Oceano Atlântico; a oeste com os Estados do Paraná e Mato Grosso do Sul.

O Pequeno Exército Paulista.

Reproduzimos na sequência parte do primeiro capítulo do livro do jurista Dalmo de Abreu Dallari "O Pequeno Exército Paulista".

Iniciamos pela transcrição da orelha:

"O peso político do Estado de São Paulo na federação brasileira está longe de corresponder ao seu peso econômico. Já houve um período, entretanto, em que os paulistas gozavam de verdadeira autonomia. E para tanto não se valiam apenas de sua força econômica, mas seus governos tinham o apoio de um forte dispositivo policial-militar. As variações do efetivo dessa força e sua posição no orçamento estadual permitem localizar os momentos em que São Paulo precisou lutar por sua autonomia e dispôs-se a isso. O desenvolvimento dado por Dallari a esses temas leva à conclusão de que talvez não seja por simples coincidência que a mudança de natureza da polícia militar de São Paulo ocorre no mesmo momento em que se acentua a perda de expressão política dos paulistas no quadro brasileiro."

São Paulo no quadro brasileiro

1 - O homem Paulista

1. Desde os primeiros tempos da vida brasileira, no século XVI, São Paulo teve uma posição peculiar entre as regiões e os povos do Brasil. Logo cedo, por motivos ainda não fixados com precisão, verificou-se que o povo habitante dessa parte do novo território português adotava atitude de independência, criando um sistema de vida próprio, sem levar muito em conta o que ocorria em Portugal, nem para a organização de seu governo, nem para a disciplina de suas relações jurídicas. E os Paulistas, desde o início, foram revelando uma forte determinação, uma extraordinária capacidade empreendedora, que decorria de um misto de ambição e desejo de aventuras.

Com o passar dos séculos aquelas características foram-se acentuando, adquirindo, entretanto, tonalidades novas em face de cada momento histórico. Como consequência, sobretudo, dessa forte personalidade e dessa capacidade de adaptação ao meio, verifica-se no correr do tempo, em São Paulo, um desenvolvimento econômico bem mais acentuado do que no resto do território brasileiro. E, enquanto que nas outras regiões se esperava quase sempre a iniciativa do governo para qualquer empreendimento de maior vulto, os Paulistas realizavam com recursos privados o seu potencial econômico.

Em meados do século XIX, quando a economia brasileira era de fundamento exclusivamente agrário, há um momento em que duas áreas, com características absolutamente diversas, lutam pela supremacia: de um lado a região nordeste, apoiada no cultivo da cana de açúcar e mantendo uma estrutura agrária de base escravista, pouco rendosa, com os senhores auferindo mais prestígio da extensão da terra possuída do que da renda obtida. De outro lado o centro-sul, especialmente São Paulo, apoiado já na cultura do café e, embora utilizando o braço escravo, dinamizado por uma ambição de ganho, em função da qual os senhores da terra se preocupavam, desde então, com a conquista de mercado consumidor e a melhora do produto. Isto fez com que São Paulo, ao contrário do nordeste, tivesse uma base econômica mais sólida e, portanto, mais capaz de se adaptar à transição do sistema apoiado no trabalho escravo para o sistema do trabalhador livre e assalariado.

Numa tentativa de explicação das diferenças de características entre os Paulistas e os brasileiros de outras regiões, o sociólogo Gilberto Freyre, aceitando uma espécie de determinismo geográfico, chega à seguinte conclusão: "No caso dos Paulistas, é possível que a terra roxa e outras terras que compõem o solo da região, tenham que entrar não só na história econômica como na social e antropológica daquele tipo enérgico, mas taciturno e calado de brasileiro" (Problemas Brasileiros de Antropologia, Rio de Janeiro, 1943, página 130). E mais adiante ele observa que, além dos determinismos geográficos e geológicos, outros fatores naturais devem ter influído sobre os caracteres biológicos e psicológicos dos Paulistas, acrescentando: "Ao casticismo Paulistas, ao individualismo do bandeirante, ao seu gosto de aventura, de expansão, de iniciativa e, ao mesmo tempo, ao seu tempo, ao seu gênio tão oposto ao do baiano, ao do cearense ao do gaúcho, talvez se liguem distúrbios felizes, bons exageros de atividades de glândulas endócrinas relacionados, por sua vez, com a composição mineral do solo regional. Felizes e bons do ponto de vista do desbravamento e da autocolonização de larga parte do Brasil por homens tão intrépidos, por híbridos sociologicamente tão vigorosos" (ob. cit., pág. 132).

Sejam quais forem as razões verdadeiras ou predominantes, o fato é que essa diferenciação, entre os Paulistas e os demais brasileiros, já pode ser percebida no século XVIII e está perfeitamente definida no início do século XIX.

Tal situação influiu para que os imigrantes estrangeiros, chegados ao Brasil após a proibição da importação de escravos e, em maior número, depois da abolição da escravatura em 1888, preferissem trabalhar em São Paulo, onde, a par de um clima temperado e de terras férteis, havia já uma força econômica muito dinâmica em atividade. Essas mesmas razões atraíram para São Paulo muitos imigrantes de outras regiões brasileiras, criando-se uma sociedade cosmopolita, mas preservando-se o dinamismo e a auto-suficiência.
Dalmo Dallari


2. Sobre as condições que favorecessem o desenvolvimento de São Paulo no fim do século XIX, atraindo grande número de imigrantes, bem como sobre a influência destes na aceleração do desenvolvimento, é interessante a síntese feita por Caio Prado Júnior. Diz ele que a concentração da indústria em São Paulo, no começo do século XX, foi devida à conjugação de vários fatores favoráveis que aí se encontraram. O principal desses fatores, em sua opinião, foi o progresso geral do Estado, graças ao desenvolvimento sem paralelo de sua lavoura cafeeira, trazendo riqueza à população. A imigração concorreu para o êxito trazendo a habilitação técnica do trabalhador europeu, muito superior ao brasileiro que acabava de sair de um regime de escravidão ou de quase escravidão. Por último, outro fator de grande importância foi a abundância de energia hidráulica, logo aproveitada para a produção de eletricidade, servindo a capital do Estado e outras cidades próximas. Assim é que no ano de 1901 já se encontra em funcionamento a primeira usina Paulista produtora de energia elétrica, pertencente a uma empresa internacional com sede em Toronto, no Canadá, e que produz de início 8.000 HP. Essa empresa - identificada como "Light" em documentos oficiais e estudos, pelo uso abreviado de seu nome - se desenvolveria bastante e exerceria grande influência na vida Paulista, desde então até o presente, pois continua a ter o monopólio da produção e distribuição de energia elétrica na região de São Paulo (conf. Caio Prado Júnior, História Econômica do Brasil, São Paulo, 1949, vol. II, pág. 268). Quanto à preferência dos imigrantes pelo sul (incluindo centro-sul) do país, é oportuno lembrar, como bem observa o historiador Edgar Carone, que São Paulo recebe também grande número de imigrantes de outras partes do país, sobretudo fugitivos das calamidades naturais e sociais do nordeste (conf. Revoluções do Brasil Contemporâneo, São Paulo, 1965, pág. 2). Era natural, portanto, que os imigrantes estrangeiros também procurassem as regiões mais favoráveis, como ocorreu.

Finalmente, sob o impacto das duas guerras mundiais deste século, São Paulo passou da economia agrária para a economia industrial, criando e desenvolvendo um ativo parque industrial, sem perder sua importância como produtor rural, o que veio acentuar, ainda mais, sua superioridade econômica no quadro brasileiro, E as forças econômicas internacionais foram sensíveis às possibilidades de São Paulo, estabelecendo aí um dos mais vigorosos redutos da América Latina.

Todo esse conjunto de circunstâncias, todas essas características da sociedade cosmopolita que vive em São Paulo, numa ânsia permanente de progresso , isso tudo fez com que Paulo Bonfim, um dos mais importantes poetas Paulistas contemporâneos , dissesse que "Paulista é, antes de tudo, um estado de espírito", para acentuar a existência de aspectos peculiares que identificam o povo que vive em São Paulo, independentemente da origem de cada um.

Trechos de João Alberto Sales, em "A Pátria Paulista".


"Não esqueçamos, todavia, que somente são fecundas e duradouras as reformas, quando penetram em todas as consciências e conquistam todas as vontades."

"A aspiração separatista é uma realidade, é um fenômeno que existe no seio da província, que complica cada vez mais, que faz rápido caminho no domínio das consciências, que encontra aderentes por toda a parte, que fala ao coração, que estimula os brios e os preconceitos locais, que cresce espontaneamente, vertiginosamente, que se avoluma a olhos vistos, que se generaliza, que se impõe ao pensamento e ao sentimento da província."

"Lei histórica: toda desagregação carrega junto a si o germe de uma nova agregação."

"Para criar um povo é preciso o lento trabalho das gerações; o povo não existe definitivamente senão quando seu carácter próprio tem se tornado hereditário pela perpetuação das famílias e pela transmissão."

"Ora, a aspiração separatista, questão que espontaneamente brota em nossa província, segundo o nosso modo de pensar, é um resultado inevitável de um destes fatores, como havemos mais tarde de demonstrar; conseguintemente, tem em si todos os elementos que a justificam plenamente, em face da evolução política. Não vemos, portanto, porque o partido republicano não há de sistematizá-lo convenientemente em proveito próprio."

"O separatismo assim compreendido, torna-se a luz dos princípios indiscutíveis da ciência, um dos mais legítimos processos da evolução política, e, por isso mesmo, uma das soluções mais razoáveis, mais sensatas, mais aceitáveis do grande problema da reconstrução da nossa nacionalidade."

"Está visto, portanto, que o nosso modo de compreender a aspiração separatista, difere muito da interpretação que outros lhe dão; e em vez de trazer consigo esse elemento de antipatia entre as diferentes províncias do país, é o meio mais rápido e mais seguro de se obter a felicidade comum."

"Não há remédio: -- ou as províncias romper corajosamente as pesadas correntes da centralização, ainda que se conservem unidas, ou reagem cada uma por si, desconjuntando o império bragantino. O que está não pode continuar."

"E na verdade: -- o que está não pode continuar, precisa ser destruído, totalmente destruído. E o único instrumento adequado a esta obra de destruição, que é ao mesmo tempo de regeneração, é o separatismo. Este deve ser o nosso supremo grito de guerra."

"Quanto maior for a prosperidade de São Paulo, maior será a ganância dos empregados do fisco imperial."

"Não há nação mais desigual que a brasileira".




“Que quer o povo? Antes de tudo é preciso no Brasil, saber-se o que quer cada um dos povos que o compõem. As aspirações nacionaes são múltiplas e antagônicas, definidas pelos interesses nítidos de cada região e coloridas pelas varias mentalidades já crystalizadas sob cada pedaço do céu. Não há nação mais desigual que a brasileira. Uma simples inspecção ocular pelo seu acidentado mappa demonstra ao menos esperto a instintiva diversidade dos interesses das suas populações e, como consequência, os immanentes conflictos das suas mentalidades.”

Entrevista do Gal. Goés Monteiro em “O Jornal”, citado por Menotti del Picchia em “A Revolução Paulista”.

O perfil dos Paulistas

TEXTO PUBLICADO PELA PÁGINA TRADIÇÃO PAULISTA (2015)



O perfil dos paulistas quem o traça com fidelidade e precisão é o governador português Antonio Paes de Sande, que escreveu em 1692: “São briosos, valentes, impacientes da menor injúria, ambiciosos de honra, amantíssimos da sua pátria, benéficos aos forasteiros e adversíssimos a todo ato servil, pois até aquele, cuja muita pobreza lhe não permite ter quem o sirva, se sujeita antes a andar muitos anos pelo sertão em busca de quem o sirva, do que a servir a outrem a um só dia”.

Haviam sido benéficos aos forasteiros, escreveu Paes de Sande. E é o que depõe o capitão-mór Silva Pontes, que examinou e completou os apontamentos de Bento Fernandes: “Os aventureiros que concorriam às Minas, vindos de vários pontos do Brasil, e de algumas províncias de Portugal principalmente, eram tão pobres que conduziam às costas quanto possuíam. Graças, porém, à caridade dos paulistas, logo que entravam, uns achavam cama e mesa nas casas destes descobridores: outros recebiam o mantimento somente; mas todos eles obtinham introdução nas lavras, até que ajuntando se habilitassem para viverem às suas expensas”. E tudo isto que valeu? A paga à bondade, à “caridade dos paulistas”, aí estava. Os aventureiros reinóis os espoliaram. Foi muito, mas não foi tudo. Davam mostras de que não viveriam nunca sob o jugo da raça nova. Humilhação sujeitar-se a um poder que não português.

Os nacionais “impacientes da menor injúria, ambiciosos de honra, amantíssimos da sua pátria”, castigarão a audácia. Na linguagem popular dos mineiros paulistas a designação forasteiro passa à sinonímia de adversário. Os portugueses e os seus aliados são os Emboabas.

FONTE:

MELLO, J. S. Emboabas. São Paulo: Governo do Estado, 1979, p. 40-42.

Citações sobre a Revolução de 1932.



“A Revolução figura não apenas como produto de interesses políticos das elites econômicas paulistas, mas também de um ideário identitário que encontrava importantes reflexos na intelectualidade e em suas corporações e instâncias de atuação” 

Livro 1932: Memória, Mito e Identidade

“Nesta guerra, entretanto, há uma página que é impossível se escrever. Nem o tempo, nem a inteligência humana, nem a história, com a pesquisa tantas vezes falha de seus autores, conseguirão interpretar a realidade da abnegação do povo paulista e o heroísmo de teus filhos”

Manuel Osório, A Guerra de S. Paulo, 1933.


“O Espetáculo de São Paulo em armas entusiasma mesmo os céticos. Há uma estranha beleza nesta metamorfose marcial. Um povo de trabalhadores despe a blusa e veste a farda. Tudo aqui deslumbra mesmo a agitação mais ardente”.

João Neves da Fontoura – Rádio Record em 1932


“Contra a Constituição? Que vinham? Combater o comunismo ou o separatismo? Combater rebeldias ou estrangeiros? Não. Essa era verdadeira bacoria, errada, muito falsa. Vinham matar paulista, que era a frase muito comum dos prisioneiros gaúchos e de muitos pernambucanos, que ao menos tinham a verdade inaudita da sua vilania. E esses encarnavam o pensamento legítimo do Brasil que sabe ler”.

Mário de Andrade


“Incitei esta vibrante mocidade paulista a arriscar suas vidas, como eu poderia deixar de ir à frente? Eu não sou homem de retaguarda, que fica fazendo discursos nas arcadas da faculdade de direito e nas rádios, a proclamar-se ‘paulista de 400 anos’. O meu paulistanismo eu afirmo nas trincheiras de fuzil nas mãos”.

Alfredo Ellis Jr


“São Paulo, mesmo antes da descoberta do Brasil, já era uma nação amada e defendida por um povo bom, valente e generoso; já era uma nação definida geograficamente, não pelos tratados hipócritas das chancelarias, mas pelas flechas sibilantes dos arcos guaianás”.

Plínio Ayrosa


“Se um dia São Paulo se levantar em armas, contra o Brasil, não se veja nisso um ato de loucura. Uma falta de patriotismo!Não! Será porque o patriotismo paulista o exige! E o grito de POR SÃO PAULO LIVRE! arrancará uma nova nacionalidade aos braços da opressão”.

José Fairbaks Belfort de Mattos, Fundamento Jurídico do Separatismo Paulista, 1933.

sábado, 25 de dezembro de 2021

A Defesa de São Paulo, por Monteiro Lobato.

MONTEIRO LOBATO


MONTEIRO LOBATO, PRESO PELA DITADURA DO ESTADO NOVO. IMAGEM REPRODUÇÃO DIÁRIO DE TAUBATÉ.


“Após a vitória de São Paulo, na campanha ora empenhada, se faz mister que seus dirigentes não se deixem embalar pelas idéias sentimentais de brasilidade, irmandade e outras sonoridades. O Norte inteiro é nosso inimigo instintivo. O Rio Grande não é amigo. Minas cuida de si. O fato de sermos irmãos não implica amizade e apoio. Temos de nos guardar de todos esses irmãos. Se Abel houvesse pensado assim não teria caído vítima da queixada de burro com que o matou Caim. Consideremo-los como inimigos: se não o forem melhor; se inimigos se revelarem, estaremos preparados para a hipótese.

A atitude única que o instinto de conservação impõe a São Paulo, depois da vitória, deverá expressar-se nesta fórmula: Hegemonia ou Separação. Ou São Paulo assume a hegemonia política, que lhe dá a hegemonia de fato que já conquistou pelo seu trabalho no campo econômico e cultural, ou separa-se. De modo nenhum poderá ficar na posição em que se achava em virtude da Constituição de 24 de fevereiro. Seria um suicídio.

Para efetivar essa conquista não há negociar. Há impor com armas na mão. Medida de elementar evidência depois da vitória será, com absoluto desprezo de todas as leis federais relativas (leis feitas contra nós, na maioria) a transferência para São Paulo do melhor material bélico que esteja em depósito nos arsenais do Rio – aviões, artilharia, munição, etc. Em vez de nos armarmos para uma equiparação bélica com o inimigo é mais barato desarmarmos o inimigo e ficarmos com as suas armas. Desarmando-o desse modo, daremos, ao militarismo federal o primeiro golpe seguro. Ficará ele com os bufos, com a arrogância – e nós com a pólvora e a granada.

O dilema é sério. Ou São Paulo desarma a União e arma-se a si próprio, de modo a dirigir doravante a política nacional a seu talento e em seu proveito, ou separa-se. Continuar como até aqui, a contribuir com setecentos mil contos por um ano para a manutenção do monstruoso parasitismo burocrático e militarístico do Rio de Janeiro – cuja função primordial é agredir e sabotar São Paulo – corresponde a suicídio por imbecilidade.

Temos que pensar nisto muito a sério. A vitória paulista vai nos custar um sacrifício imenso. Guerra significa destruição intensa de riquezas. Nada mais caro que a guerra – e temo-la em casa. Essa vitória caríssima, porém, será miseravelmente sabotada e surrupiada pelos nossos amados irmãos em brasilidade, se no momento oportuno não soubermos agir com a mesma decisão com que estamos agindo agora. Temos que arrancar as armas federais (que o dinheiro paulista pagou) das munhecas dos nossos queridíssimos irmãos antes que eles as voltem contra nós ainda uma vez. Já três em sete anos – 1924, 1930, 1932. Positivamente é demais…

O nosso sentimentalismo é uma forma de romantismo. Romantismo quer dizer criação dum mundo falso, fora de todas as realidades. De todo romantismo o homem acorda, um dia, ferido pelo pontapé da realidade. Ponhamos de lado o romantismo grotesco com que nos procuramos iludir, encaremos de frente a realidade real – como fazem os fortes. Saibamos, convençamo-nos de que Hobbes terá eternamente razão: o homem é o lobo do homem. Saibamos ainda que nunca, jamais, em tempo algum, o fato de ser irmão tirou ao lobo a sua ferocidade de lobo. Aceitemos Hobbes. Sejamos lobos contra lobos. Lobos gordos contra lobos famintos. Organizemos a nossa defesa. Tenhamos até a nossa futura Tcheca interna, nos moldes russos, se for preciso, para a destruição sistemática dos inimigos internos. Itararé está mostrando que quem o inimigo poupa nas mãos lhe morre.

Convençamo-nos de que só há dois caminhos na vida: ser martelo ou bigorna, boi de corte ou tigre. Velha bigorna, velho boi de corte, velha vaca de leite que tem sido, transforme-se São Paulo em tigre. Faça-se todos dentes e garras afiadíssimas, antes que a linda idéia romântica da brasilidade o reduza a churrasco. E oponhamos aviação eficientíssima e metralhadoras das mais modernas às queixadas de burro com que Caim nos pode atacar.”

*A íntegra da carta se encontra no livro “1932 – A guerra paulista”, de Hélio Silva, nas páginas 279 a 283.”

Aventureiros Paulistas

J. WASTH RODRIGUES



"As companhias deviam socorrer o 'continente do Viamão', pois, diz o Vice-Rei em sua carta, 'estou persuadido que os Paulistas são os mais próprios homens que o Brasil tem para a vida militar'. "

Deu-se, na Idade-Média, o nome de aventureiros a soldados voluntários, pagos ou não, que se agregavam às hostes, combatendo irregularmente e vivendo do saque. No século XIV, tornaram-se mercenários integrados às bandes, tropas compostas de vagabundos, salteadores e criminosos. Sua história é dramática pois esta gente indisciplinada e rixenta, que servia a quem melhor pegasse, foi uma das grandes preocupações dos chefes militares e dos monarcas, só melhorando no século XV, quando vieram a formar as Grandes Compagnies.

O nome “Aventureiros” aparece em Portugal, já com sentido inteiramente diferente, com D. Sebastião, em 1578, na batalha de Alcacer — Quir. É, então, assim chamado um esquadrão formado de 1400 voluntários fidalgos.

No Brasil, em tempos coloniais, a presença de “Aventureiros” é constatada várias vezes. Na expedição que partiu de Pernambuco em 1614 para a conquista do Maranhão, marcharam, além do corpo de infantaria, conforme relata Pereira da Costa, voluntários chamados Aventureiros “que, separadamente do mesmo corpo, teriam para comandá-los, quando fosse necessário, o cabo que se lhe nomeasse”.

Os chamados Aventureiros da conquista eram companhias irregulares de índios e mestiços, criados para preceder na penetração do sertão às forças regulares, sendo geralmente destinadas a combater as investidas do silvícola. Foram extintas pela Provisão de 19 de dezembro de 1819.

Companhias de Aventureiros Paulistas. A 1 de agosto de 1739, o governador D. Luís de Mascarenhas criou no território de Goiás — então pertencente a São Paulo — duas companhias de pedestres com designação de aventureiros que, pouco depois, foram reduzidas a uma.

A partir da segunda metade do século XVIII, muitas companhias foram levantadas em São Paulo, como veremos, para acorrer às lutas no Sul ou guarnecer fronteiras.

Uma companhia de “Aventureiros” foi organizada por Cristóvão Pereira de Abreu, criada por ordem de Gomes Freire de Andrade a 16 de janeiro de 1752, para integrar a expedição ao Rio Grande de São Pedro, por motivo da execução do tratado de Madrid. Gomes Freire partiu de São Paulo com duas companhias de Santos, ao todo 104 homens, e a Companhia de Aventureiros Paulistas que, com os Lagunenses, somaram 162 homens, sob o comando do capitão Mateus Camargo.

Sob os feitos desta expedição, diz Rio Branco que os Aventureiros de São Paulo e Santa Catarina ajudaram a repelir o ataque dos guaranis, comandados por Sapé, ao forte do Rio Pardo, a 29 de abril de 1754. O forte, que estava sob o comando do coronel Tomás Luís Osório, tinha por guarnição, além dos Aventureiros, infantaria do Rio de Janeiro e Dragões do Rio Grande(2).

Iniciada a luta no Sul contra os Castelhanos, motivada pelas hostilidades destes, chefiados por Vertiz y Salcedo, coordenou o Conde de Bobadela a 28 de março de 1762 ao Governador de Santos, Alexandre Luís de Souza Menezes, que subisse a S. Paulo e formasse um corpo de 200 homens.

Informa Rio Branco que a 1 de janeiro de 1763, foi tomada a “trincheira espanhola do arrio de Santa Bárbara (Rio Grande do Sul) pelo Capitão Francisco Pinto Bandeira, à frente de 230 Dragões do Rio Grande e Aventureiros Paulistas. O principal herói do dia foi o Capitão Miguel Pedroso Leite, Comandante da infantaria de S. Paulo. A trincheira tinha 7 peças que foram transportadas para o forte do Rio Pardo e era defendida por 500 milicianos corrientinos e muitos índios, sob o comando do Tenente-Coronel Antonio Catanix”.

Trata-se, provavelmente, de Aventureiros que ficaram no Sul, remanescentes da expedição de Gomes Freire, ou das companhias de infantaria de Santos, que marcharam para o Rio Grande em 1762.

O Conde da Cunha, que substituiu Gomes Freire (conde de Bobadela) no governo do Brasil e no da capitania de S. Paulo em outubro de 1763, determinou ao governador de Santos, que fossem levantadas 4 companhias de Aventureiros, em todo o território paulista, com 60 homens cada uma, formando-se em Santos um núcleo de exército sob o comando do cel. Mexia Leite. As companhias deviam socorrer o “continente do Viamão”, pois, diz o Vice-Rei em sua carta, “estou persuadido que os Paulistas são os mais próprios homens que o Brasil tem para a vida militar”. E promete o pagamento do soldo “sem demora de dois meses pontualissimamente e ajuda de custas antes de saírem de suas casas”. O soldo oferecido foi de 4$800 por mês.

Traiçoeiramente, D. Luís Antonio atraiu a tropa para São Bernardo e lá, compulsoriamente, escolheu os melhores homens, formando as 4 companhias que, sob o comando do Sargento-mor Teotônio José Juzarte, seguiram para Santos a 11 de Setembro de 1765 e lá ficaram de prontidão(3). Como sempre, o magnífico soldo e as vantagens prometidas aos aventureiros com tanto açodamento pelo Conde da Cunha foram esquecidos.

Surge, neste momento a grave questão da situação destas companhias em face da organização do exército pois, criadas em emergências, não se enquadravam em nenhuma das três linhas existentes: tropa paga, auxiliares, ou ordenanças; daí a dificuldade para a legalização do soldo prometido, mandando embarcar as companhias para o Rio Grande, e aqueles que não o aceitassem ou não quisessem embarcar, que fossem castigados. De fato, embarcaram a 3 de janeiro de 1766 e chegaram à fronteira do Viamão a 14 de fevereiro do mesmo ano.

A 21 de maio de 1767 foi feito um novo pedido, o de mais 90 aventureiros. Em carta de 14 de setembro do mesmo ano a D. Luís Antônio, pediu o Conde da Cunha que as 4 companhias se recolhessem aos seus quartéis pois chegara tropa de Lisboa com o general Bohm e o Engenheiro Brigadeiro Funck. Efetivamente, os Aventureiros voltaram do Sul em janeiro de 1768.

Bohm era alemão e estivera em Portugal na comitiva do Conde de Lippe, em 1762, sendo um dos seus mais distintos oficiais. Em 1765, voltou a Portugal a pedido de Lippe, e, em 1767, veio para o Brasil, enviado pelo Marquês de Pombal, como tenente-general comandante em chefe de todas as tropas na campanha do Sul. Terminada esta com a vitória, voltou para o Rio em janeiro de 1779, sendo festivamente recebido. Devido a uma queda de cavalo, veio a falecer em junho do mesmo ano (Rio Branco diz a 22 de dezembro de 1783) sendo sepultado no Convento de Santo Antônio, pois se havia convertido ao catolicismo.

Em 1772, três companhias de Aventureiros figuram na guarnição do forte ou presídio do Iguatemi. Este forte, situado à margem do rio Iguatemi, perto da foz do rio das Bogas, no Sul do Mato Grosso, foi fundado em 1765 pelo capitão João Martins de Barros, por ordem de D. Luís Antônio, para conter as incursões espanholas. Suas defesas, formadas de cinco baluartes e dois meios baluartes em terra batida e faxina, só terminaram em 1770, sendo armadas com 14 canhões.

A guarnição foi composta de cinco companhias de Aventureiros Paulistas e uma de artilharia do Rio de Janeiro, num total de 300 homens. Sofreram estes soldados e a população civil, durante anos, toda a sorte de provações, misérias e doenças, com enorme perda de vidas.

Em 1774, o forte foi atacado pelos Gauicurus. Em 1776, recebeu um reforço de 78 soldados do Regimento de Infantaria de S. Paulo, de Mexia Leite. Rendeu-se aos castelhanos comandados por D. Agostinho Penedo, em 27 de outubro de 1777, sendo arrasado.

Destacam-se, na triste história deste forte, o sertanista Teotônio José Juzarte que comandou por algum tempo sua guarnição e deixou um Diário onde narra o que foi a vida na praça; o capitão João Martins de Barros e o vigário Antônio Ramos Louzada, que teve a desdita de assinar a capitulação — pois estava a praça sem comando — e por tal crime passou 19 anos encarcerado no Forte da Barra, em Santos.

A 10 de agosto de 1774, promete D. Luís Antônio ao vice-rei a formação de mais uma companhia de aventureiros ou caçadores, precisando para isso de um oficial.

Em 1775, são reorganizadas as tropas de S. Paulo a fim de seguirem para o Sul em vista de novas lutas, criando-se então a Legião de Voluntários Reais. Com isso, tendem a desaparecer os aventureiros; no entanto, em carta de 1777 promete Martim Lopes Lobo ao general Bohm a formação de uma companhia de aventureiros (de caçadores como então eram chamados) “de 100 homens fortes e resolutos que chamam caneludos”, projetando criar em seguida outra. Essa notícia enche de júbilo o general em chefe, que a 2 de junho do mesmo ano, não escondendo sua alegria ao governador, escreve sobre a notícia: “é a mais agradável que v. excia. me dá da formatura de uma companhia de aventureiros de cem homens, que eu receberei de braços abertos, e beijos às mãos de v. excia. pela mercê que nisto me faz particularmente”. Tal promessa não teve efeito em vista do armistício assinado.

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Excerto do livro "Tropas Paulistas de Outrora". São Paulo: Governo do Estado, 1978.

Publicado no Facebook pela ótima página TRADIÇÃO PAULISTA

Amador Bueno da Ribeira, herói dos Paulistas.

PUBLICADO NO FACEBOOK NA PÁGINA TRADIÇÃO PAULISTA, A QUAL FICAM TODOS OS MÈRITOS PELO EXCELSO TRABALHO DE DIVULGAÇÃO DA HISTÓRIA PAULISTA.



Suas obras em prol de S. Paulo conferem a Amador Bueno o título de herói dos paulistas, entretanto o episódio ocorrido em 1641 é um dos que mais suscitam sua memória: a aclamação do rei dos paulistas.

A princípio um olhar insipiente nos leva a inferir uma conclusão errônea: ele não recusou, na verdade, a autonomia que sempre clamaram os paulistas? O que de fato se passou foi que se Amador Bueno consentisse com sua aclamação não estaria desvencilhando-se de uma coroa, mas sim submetendo-se à outra numa trama conduzida pelos espanhóis.

Abaixo, um importante relato de Frei Gaspar sobre o ocorrido publicado em suas "Memórias para a História da Capitania de S. Vicente Hoje Chamada de S. Paulo".

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176. Chegando a S. Paulo a notícia de que Luís Dias Leme havia aclamado Rei na Vila Capital de S. Vicente ao Sereníssimo Senhor Duque de Bragança com o nome de D. João IV, por ordem e recomendação que para isso lhe dirigira em carta particular D. Jorge Mascarenhas, Marquês de Montalvão e Vice-Rei do Brasil foi esta inesperada novidade um golpe sensibilíssimo aos espanhóis que se achavam estabelecidos e casados na dita Vila de S. Paulo, para onde tinham concorrido não só da Europa, mas também das Índias Ocidentais. Eles desejavam conservar as Povoações de Serra acima na obediência de Castela e não se atrevendo a manifestar seu intento, por conhecerem que seriam vítimas sacrificadas à cólera dos paulistas, se lhes aconselhassem que permanecessem debaixo do aborrecido julgo espanhol, resolveram entre si usar de artifício, esperando conseguir, por meio da indústria, o que não haviam de alcançar, se fossem penetrados os seus desígnios.

177. Tinham por certo que a Capitania de S. Vicente e quase todo o sertão brasílico antes de muitos anos tornariam a unir-se às Índias de Espanha, ou pela força das armas ou pela indústria, se os paulistas caíssem no desacordo de se desmembrarem de Portugal, erigindo um Governo separado, qualquer que ele fosse, suposta a comunicação que havia por diversos rios entre as Vilas de Serra acima e as Províncias da Prata e Paraguai. Com estas vistas, fingindo-se penetrados do amor ao país onde estavam naturalizados e do zelo do bem comum, propuseram aos seus amigos, parentes, aliados e a outros, um meio que lhes pareceu o mais seguro, para conseguirem os seus intentos: tal era o de elegerem um rei paulista; e ao mesmo tempo apontaram como o mais digno da Coroa Amador Bueno de Ribeira, em cuja pessoa, para não ser rejeitado pelos seus patrícios, concorriam as circunstâncias de ser de qualificada nobreza e de muito respeito e autoridade pelos empregos públicos que havia ocupado e ainda exercia, pela sua grande opulência, pela roda de parentes, e amigos, e pelas alianças de seus nove filhos e filhas, duas das quais estavam casadas com dois irmãos, fidalgos espanhóis, D. João Mateus Rendon e D. Francisco Rendon de Quevedo, que tinham passado ao Brasil, em 1625, militando na Armada Espanhola, destinada para a restauração da Bahía. Mas os espanhóis, em designarem Amador Bueno de Ribeira, se lisonjeavam que por ser filho de Bartolomeu Bueno de Ribeira, natural de Sevilha, produziria nele maior efeito o sangue de seus avós paternos, para vir a declarar-se maior efeito o sangue de seus avós paternos, para vir a declarar-se vassalo de Espanha, do que o herdado dos seus ascendentes maternos, da nobre Família dos Pires, e o ter nascido em uma província portuguesa para haver de seguir o legítimo partido das outras do Brasil, Reino e Conquistas.

178. Valeram-se os espanhóis de todos os argumentos possíveis para persuadirem aos paulistas e europeus pouco instruídos, que, sem encargo de suas consciências, nem faltarem à obrigação de honrados e fiéis vassalos, podiam não reconhecer por Soberano a um príncipe a quem ainda não haviam jurado obediência. Fomentavam ao mesmo tempo a vaidade dos ouvintes, exagerando o merecimento dos paulistas e europeus principais, e dizendo que as suas qualidades pessoais e nobreza hereditária os habilitavam para outros maiores impérios. Para os livrarem de temores, lembraram os milhares de índios seus administrados e escravos com que podiam levantar Exércitos formidáveis de muitos mil combatentes e a situação de S. Paulo, sumamente defensável e tão vantajosa nesse tempo, que por haver para os portos de mar tão somente a estrada de Paranapiacaba, de qualidade muito má, bastaria lançarem-se pedras pela serra abaixo, para se retirarem derrotados os expugnadores.

179. Eram sinceros os moradores de S. Paulo, e, ainda fiéis, bem poucos entre eles teriam a instrução necessária para conhecerem o Direito incontestável da Sereníssima Casa de Bragança ao centro, e para perceberem os laços e as funestas desgraças em que aquelas maquinações os iam precipitar. Além disso, a plebe em toda a parte é fácil de mover-se e de arrojar-se a excessos. Os espanhóis conseguiram seduzí-la e ajuntar um grande número de pessoas de todas as classes que, aclamando unanimemente por seu Rei a Amador Bueno de Ribeira, concorreram cheios de alvoroço e entusiasmo, à sua casa a congratular-se com ele.

180. Pasmou Amador Bueno de Ribeira quando ouviu semelhante proposição: ele detestou o insulto dos que a proferiram e com razões procurou dar-lhes a conhecer sua culpa e cega indiscrição. Lembrou-lhes a obrigação que tinham de se conformarem com os votos de todo o Reino e a ignomínia de sua Pátria, se não reparasse a tempo com voluntária e pronta obediência o desacerto de tão criminoso atentado. Mas a repugnância do eleito aumenta a obstinação do povo ignorante: chegam a ameaça-lo com a morte se não quiser empunhar o cetro. Vendo-se nesta consternação o fiel vassalo, saiu de sua casa furtivamente e, com a espada nua na mão para se defender, se necessário fosse, caminhou apressado para o Mosteiro de S. Bento, onde intentava refugiar-se. Advertem os do concurso, que havia saído pela porta do quintal, e todos correm após ele, gritando: viva Amador Bueno, nosso Rei: ao que ele respondeu muitas vezes, em voz alta: viva o Senhor D. João IV, nosso Rei e senhor, pelo qual darei a vida.

181. Chegando Amador Bueno de Ribeira ao Mosteiro, entrou e fechou rapidamente as portas. Como os paulistas antigos veneravam sumamente aos sacerdotes, principalmente aos Regulares, nenhum insultou ao Convento e todos pararam da parte de fora, insistindo porém na sua indiscreta pretensão. Desce à portaria o D. Abade, acompanhado da sua Comunidade, e, com atenções entreteve a multidão, enquanto Amador Bueno de Ribeira mandou chamar à pressa os eclesiásticos mais respeitáveis, alguns sujeitos dos principais que se não achavam no concurso. Vieram logo uns e outros, e todos unidos ao dito Bueno fizeram compreender aos circunstantes que o Reino pertencia à Sereníssima Casa de Bragança e que dele se acharia esta em posse pacífica desde o dia da morte do Cardeal Rei D. Henrique, se na violência dos monarcas espanhóis não houvera sufocado o seu Direito.

182. Nada mais foi necessário para se conduzirem aqueles fiéis portugueses como deviam: todos arrependidos do seu desacordo, foram cheios de gosto aclamar solenemente o Senhor D. João IV, com mágoa dos espanhóis, os quais, para não perderem as comodidades que tinham vindo procurar em S. Paulo, prestaram também o juramento de fidelidade ao mesmo Soberano. Para beijarem a Real Mão de S. Majestade Fidelíssima, em nome do Senado e moradores de S. Paulo, foram mandados à Corte os dois paulistas: Luís da Costa Cabral e Baltasar de Borga Gato; e o mesmo Senhor se dignou agradecer esta obediência, por Carta firmada do seu Real Punho, datada em Lisboa a 24 de setembro de 1643 (170).

183. A substância do referido caso se confirma com as palavras de Artur de Sá e Menezes, Capitão General da Repartição do Sul e Governador da Companhia dos Oficiais de guerra reformados, Juízes e Vereadores que tivessem servido na Câmara de S. Paulo, por ele passada a Manuel Bueno da Fonseca, e datada aos 3 de março de 1700, na qual depois de relatar alguns serviços do mesmo, diz o General (171):

“E quando não bastárão estes serviços, era merecedor de grandes cargos, por ser neto de Amador Bueno, que sendo chamado pelo Povo para acclamarem Rei, obrando como leal, e verdadeiro Vassallo, com evidente perigo de sua vida clamou, dizendo que vivesse ElRey D. João IV seu Rey, e Senhor, e que pela fidelidade, que devia de Vassallo, digno de grande renumeração, hei por bem nomear...”

184. Esta patente foi confirmada pelo Senhor Rei D. Pedro II, a 25 de novembro de 1701, e nela, depois de se relatarem os serviços e merecimentos do mesmo Manuel Bueno da Fonseca, se dignou S. Majestade honrar a memória daquele grande homem, com as seguintes expressões: E ultimamente por ser neto de Amador Bueno, leal e verdadeiro Vassalo de minha coroa (174).

Também o Senhor Rei D. João V no alvará que se passou a 20 de novembro de 1704, para efeito de ser armado Cavaleiro da Ordem de Cristo o referido Manuel Bueno, faz uma igualmente honrosa comemoração do mesmo respeitável paulista: Por ser neto do meu muito honrado, e leal Vassalo Amador Bueno (173). Pela tradição constante entre todos os antigos e alguns modernos desta Capitania, sabem-se as mais circunstâncias principais do mencionado sucesso o qual eu refiro com gosto, não pela honra de contar entre os meus terceiros avós ao dito Amador Bueno, mas sim para propor ao mundo um exemplo da mais heroica fidelidade; e porque os paulistas, conservando na memória estas e outras gloriosas ações dos seus Maiores, continuem a mostrar em todo o tempo aquele mesmo amor e inalterável fidelidade que sempre os caracterizaram para com os seus Augustos Soberanos. A glória de ter por progenitor Amador Bueno de Ribeira pertence a muitas nobres famílias existentes nas Capitanias de S. Paulo, Goiás, Gerais, Cuiabá e Rio de Janeiro, onde são seus ilustres descendentes os da casa de Marapicu, cujo Senhor, o Desembargador do Paço, João Pereira Ramos de Azevedo Coutinho, respeitável por tantos títulos, é 4.º neto do mesmo Amador Bueno de Ribeira, por sua filha D. Maria Bueno de Ribeira, casado com o sobredito D. João Mateus Rendon, seu 3.º avô.

Frei Gaspar. Memórias para a História da Capitania de S. Vicente Hoje Chamada de S. Paulo. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1976. P. 138-142. (Escrito originalmente em 1797).

A lei da cissiparidade

ALLYRIO MEIRA WANDERLEY



Quando uma nação nasce, começa a morrer. Dá-se com ella o que se dá com todo organismo: o nascimemnto é o primeiro passo para a morte. Traz em si, occulto mas activo, o germen da desaggregação. E' o principio do fim.

Sujeita-a, destarte, uma regra inflexivel.

Poder-se-ia mesmo estudar a biologia das nações, mediante um paradigma cellular. Com effeito, as nações como as cellulas, se multiplicam por seccessão. A scissiparidade nacional é, em sociologia, o que é, em biologia, a scissiparidade cellular. Tem a constancia caracteristica das leis naturaes.

Esse simile biologico vae ás ultimas consequencias e minucias; ajuda-se ao phenomeno sociologico da multiplicação das nações, como um corpo á própria imagem.

E não se limita a reproducção: attinge a conjugação, attinge até a immortalização experimental dos unicellulares.

Se, pois, uma nação é um organismo adstricto a nascimento, crescimento e multiplicação, graças a uma lei que rege a sua evolução essa lei é que determinará, mais cedo o mais tarde, no exercicio da sua soberania, o desmembramento do Brasil....

Objectar-se-á, talvez, que certos organismos vivem em colônias e que a divisão individual não implica em separação, ao passo que outros, multicellulares, devem a existencia á propria aggregação das partes. De facto.

Mas, o fim de todo sêr é viver. E o que conduz a cellula á scisão é ainda essa vontade universal de viver; quando se sente envelhecer e, portanto, approximar-se da morte, busca o rejuvenecimento na seccessão e, com isso, a perpetuação nos pedaços em que se reparte e que renovarão o mesmo cyclo vital, seguido da mesma multiplicação, indefinidamente. Por outro lado, a condição essencial á existencia de qualquer sêr, como especie é a sua adaptação ao meio e a correlação das especies ahi em acção. Donde, a constante procura de um equilibrio e as varias modalidades de associação, que oscillam do commensalismo e da symbiose até o parasitismo, com vantagem para um dos componentes. Nas nações, formadas de partes distintas, a seccessão sobrevem ao rompimento do equilibrio entre ellas e o ambiente, tal qual no unicellular, impossibilitado de sobreviver, sem alguma mutação superveniente, em harmonia com seu meio. Uma se torna nociva ás outras, e exhaure-as ou intoxica-as incapacitando-as para a adaptação, isto é para a lucta contra o universo que nos aggregados humanos, se reduz á manutenção de dadas funcções e organizações: costumes e instituições; então, essas outras reagem, para escapar ao extermínio. Se a cellula não se scinde, entra na decrepitude e morre; se a nação não se desmembra, ganha-a sorte egual. Ora, a biologia e a historia mostram que ambas preferem á anniquilação a sobrevivencia e, assim, sabe-se qual o caminho que seguem nessa aspera bifurcação de destinos.

Veja-se, então, de mais perto isso tudo. E nada melhor que um exemplo, arrancado ao passado, para mostrar na sua nudez o futuro. Um e outro são o fio de um mesmo carretel, que se desenrola com a passiva Constancia da eternidade.

Era uma vez uma nação chamada Roma. Nascera, fosse lá como fosse, crescera e, finalmente, amadurara. Cellula poderosa, palpitando no meio onde brotara, começou a absorver tudo quanto a rodeava. Absorvia e assimilava. Aquilo em que roçava transformava-se como que por magia; sua vitalidade parecia illimitada e, dahi, a intensidade do seu matabolismo. Ficou, como cellula, enorme.

Mas, chegava o momento em que a cellula, maior, principia a criar a cinta, que depois é vinco e que, afinal, se torna corte, separando-a em bocados. E um pedaço da cellula Roma, differenciando-se cada vez mais, apartando-se cada vez mais, certo dia, com um pouco do seu nucleo e do seu protoplasma - vestigios de idioma e de religião, de jurisprudencia e de costumes - desprendeu-se: foi uma nação nova, que teve o nome de Hespanha.

Roma quedou para o seu lado, sujeita a novas secessões; Hespanha, então, iniciou o seu proprio destino de cellula independente. Por sua vez, cresceu; devorou; estendeu-se na medida do possível. E assimilava quanto lhe era permitido. Amadureceu também; e, pouco a pouco, parte do seu organismo pôs-se a divergir, pôs-se a afasta-se. Surgiu, no corpo vivo da cellula, a cinta typica, que após se fez vinco e, por fim, se fez talho. Em summa, a cellula scindiu-se; e appareceu, ahi, Portugal.

Hespanha ao cabo, seguiu o seu caminho, exposta a novas divisões emquanto Portugal, por seu turno, cuidava de cumprir, bem ou mal, o fato de cellula livre. Não podendo crescer para o oriente, onde permanecia, inexpugnavel, a cellula madre, voltou-se para o oeste e achou o mar. O mar, porém, nada lhe dava. Atirou-se contra elle, passou sobre elle e veio, cá na America, procurar aquillo que necessitava: alimento. Encontrou-o. Tomou-o a seu talante. Incorporou-o a si, como é costume das cellulas, absorvendo-o e assimilando-o . Subiu a um alto grau de desenvolvimento.

Todavia, ergueu-se aquella fatalidade biologica, que não permitte estacionamento nem eternizações a nação nenhuma. Esta parte da cellula, então, expontanea e inesperadamente, deu para colori-se, para individualizar-se. Debalde pretenderam retel-a na senda da differenciação: proseguiu com vegetativa regularidade. Aggravou-se, com o tempo, o phenomeno. E, contra tudo e contra todos, a cellula Portugal rompeu-se e o Brasil surgiu, de chofre, como cellula distinta, prompta para a vida em condições normaes...

E' obvio. Essa marcha multisecular e uniforme, hoje, apresenta-se com meridiana clareza até o intimo de cada refolho e de cada detalhe. Exposta assim, mostra visivelmente, na sua Constancia intrinseca, a constancia de uma força causal immanente.

Eil-a em acção, na desordem apparente dos factos e na ordem profunda dos effeitos, a lei de scicciparidade.

A tal altura, quiçá se pergunte: parará ella aqui, aquella caminhada?

Não, sem duvida; não parará aqui, nem em parte alguma. Nisso está o cyclo vital das nações, que é o mesmo cyclo vital das cellulas, semelhante ao de todos os sêres vivos.

Por que haveriam de estacar em nós, os chamados abusivamente brasileiros, a natureza e a historia? Que teríamos nós de especial para que derogassemos as leis que regulam, através dos millenios e dos continentes, o movimento dos povos?

Seria absurdo imaginal-o; esperal-o, seria idiotice.

Por isso mesmo é que, obedientes a esse determinismo biosociologico, já agora avançamos de olhos abertos pela mesma estrada que palmilhou Roma, que palmilhou Hespanha, que palmilhou Portugal: assim como de Roma sahiu Hespanha, de Hespanha sahiu Portugal, de Portugal sahiu o Brasil, assim tambem , em breve, do Brasil - cellula que se multiplica por acissiparidade - sahirão novas cellulas, que serão nações novas a scintillar nos mappas.

Não esplende ahi, por ventura, um feixe de translucidas evidencias?

De certo. A unidade eterna das nações seria uma aberração, como a eternidade individual de um homem ou de uma arvore. Não se aponta, hoje, nenhuma que viesse, intacta, do erguer do panno da historia; todas passaram, cada uma de per si, para sobreviver apenas, como as cellulas, na voluvel dispersão das descendencias. Pela mesma razão, repugna á logica se aponte alguma que se destine, dyscola e soberba, em taes condições, á consummação dos seculos: não seria um organismo: seria um prodigio.

E, na terra, não ha mais lugar para o milagre...

Aqui, por acaso, alguém se lembrará de indagar: não se póde impedir indefinidamente a scissiparidade nacional por meios artificiaes? Sim, em theoria; como se póde, em biologia, protelar indefinidamentea scissiparidade cellular, mantendo-se o individuo sempre em ambiente favorável e amputando-se-lhe o protoplasma á medida do seu desenvolvimento. E' a conhecida experiencia de Hartmann com amebas. Por meio de communicações múltiplas, intensas e adequadas, pelo estabelecimento de uma rede continua e progressiva de interesses reciprocos, pela adopção de formas de governo uteis e e beneficas a toda e a cada uma das partes integrantes, é possivel , em theoria, dilatar a unidade de uma nação até o infinito.

A longevidade da immensa Roma talvez se deva, em mais da metade, ao cuidado que tinha ella pelas suas estradas, com funcções ao mesmo tempo economicas, politicas e estrategicas. Em theoria, a cellula é immortal, mesmo sem divisões: por que não o seria egualmente a nação? Trata-se, no entanto, de um artifício experimental, inexequivel sem duvida, e inteiramente fora dos quadros reaes da historia e da natureza. Ninguem pensaria em ter uma patria no laboratorio!

Em semelhante caso, quiçá se afigurasse a alguem possivel tal remedio para o Brasil. Mas, não; nem por sombras. Desde que a cellula inicia o seu processo de acisão, é inútil tentar detel-a: irá ao fim. O mesmo acontece aqui. O processo de scisão nacional avançou demasiado: a differenciação é irreparavel, irreparavel é o esphacelamento. Sabe-se de quatrocentos annos de actividade nesse sentido; há outros, comtudo, que se não logra contar nem medir, e são aquelles que levou o propria terra em se modelar a si mesma, tal qual a encontrou aqui o homem.

E' a geologia que escava o alveo por onde, seculos adeante, rolarão as aguas da historia...

Reprodução autêntica do Capitulo III, páginas 17 a 22, do livro AS BASES DO SEPARATISMO, exemplar nº 1483, de autoria do ilustre paraibano ALYRIO WANDERLEY. Editado no ano de 1935, por A. MEIRA EDITOR, São Paulo.

A Hispanidade Paulista

ERNANI DA SILVA BRUNO

Ainda um fator de caracterização de São Paulo em face de outras cidades grandes brasileiras - do ponto de vista da composição racial e de traços de cultura - foi a contribuição de espanhóis a formação da população do planalto. Isso desde os primeiros tempos e acentuadamente a partir de 1580, quando Portugal passou ao domínio da Espanha, falando-se então em São Paulo, ao lado da "língua geral", coisa, no carácter e nos costumes dos Paulistas - observou o viajante Rugendas - pode ser explicada pela contribuição do sangue espanhol. Referia-se o desenhista alemão à simplicidade dos costumes Paulistas e à ausência de luxo, mesmo entre as suas classes elevadas. E ainda ao fato de que entre os Paulistas a música, a dança e a conversação substituíam o jogo, que era um dos divertimentos principais em outros núcleos urbanos brasileiros, onde seguiam, nesse ponto, "os hábitos portugueses e ingleses, ao passo que os Paulistas conservaram as tertúlias da Espanha". Por outro lado, Ferdinand Denis, referindo-se a província de São Paulo em torno de 1837 observou a semelhança de sua capital com certas cidades da Andaluzia. Em parte, talvez, impressionado com os trajes das mulheres das classes mais abastadas, que usavam na época vestidos de sarja de Málaga e mantilhas de pano fino com largas rendas de retrós. Traje pitoresco ainda em meados do século por algumas Paulistas de distinção, no dizer de Bernardo de Guimarães, "enquanto que as escravas e as mulheres de baixa classe" usavam embrulhar os ombros e a cabeça em dois côvados de pano ou baeta.

Do primeiro volume do livro "História e Tradições da Cidade de São Paulo".

Tietê, o rio que forjou uma nação.

07/11/2013

RAUAN LUIZ


Compreender uma nação é, em princípio, compreender as incitações, obstáculos e concessões fornecidas por sua região. O cenário encontrado no planalto vicentino parecia ser totalmente adverso a qualquer tipo de colonização e penetração pelo seu interior. O primeiro obstáculo a ser vencido era a Serra do Mar, uma muralha natural de quase mil metros de altura coberta por densas florestas. Contudo, desbravar a Serra do Mar era um convite ao descobrimento de todo o interior da América do Sul, quem fez esse convite foi, é claro, o Tietê. Uma série de adversidades como, por exemplo, o isolamento e a pobreza, incutiram nos paulistas o espírito desbravador, esse mesmo espirito parecia estar presente também no nobre anfitrião dos sertanistas, o Tietê que audaciosamente recusa o mar e vai banhar o Oeste. Aquela velha muralha que parecia fazer do seu interior uma fortaleza isolada do resto do Universo contribuiu mais tarde para que os recém rechegados paulistas se tornassem a face desse isolamento. Integraram-se aos nativos, criaram um idioma, um folclore, uma constituição não escrita, enfim, toda uma cultura e identidade.

Esse é um dos aspectos mais interessantes da história de São Paulo. A geografia da região e as adversidades confluíram para forjar uma nação que construiu o Centro-Sul do Brasil. Sérgio Buarque de Holanda já assinalava que a aversão ao sedentarismo e aos latifúndios foram elementos importantes para a constituição do caráter dos locais, e além disso, fizeram do Tietê uma espécie de presente ao espirito paulista da época. Os diários, relatos e registros que temos dessa época são belíssimos, Afonso de E. Taunay publicou uma coleção deles no seu livro “Relatos Monçoeiros”, transcrevo um trecho da introdução, um convite irrecusável à leitura:

II

PAPEL CAPITAL DO TIETÊ NOS FASTOS DA CONQUISTA OCIDENTAL. — O EPISÓDIO DAS MONÇÕES CUIABANAS ÍMPAR NOS ANAIS DA HISTÓRIA UNIVERSAL. O TIETÊ E O SÃO FRANCISCO. AS PRIMEIRAS NAVEGAÇÕES PARA OESTE. ANHEMBY E TIETÊ.

Criara-se o episódio das monções, incerto com o maior relevo nos anais do bandeirantismo de São Paulo, assumido ímpar originalidade não só em nossos fastos nacionais como nos do Universo.

E, com efeito: em parte alguma do globo as condições geográficas, demográficas, comerciais, coexistiram e associaram-se tão típicas, tão originais, quando as que caracterizaram esta via anfíbia de milhares de quilômetros de imensos percursos fluviais e pequenas jornadas terrestres: a estrada das monções entre os pontos terminais de Araraitaguaba e Cuiabá. Separados por três mil e quinhentos quilômetros da mais áspera navegação com a mínima solução de continuidade constituída por alguns quilômetros do varadouro Camapuan.

Foi esta via dolorosa o recuador, por excelência, das lindes luso-espanholas para o âmago da América do Sul. E em desrespeito ao ajuste inter-ibérico de 1494 definitivamente perempto em 1750 graças ao influxo das bandeiras sobre a resistência e a inércia castelhanas, pequena ao Sul e no Centro do Brasil atual, quase nula e, por assim dizer, inexistente na Amazônia.

Na perseguição do meridiano de Tordesilhas forçada a um deslocamento de vinte graus do litoral paulista às margens do Guaporé o percurso das monções se nos afigura como se enristada lança fora, de irresistível empuxo contra a linha interpolar diplomática estatuída pelo Príncipe Perfeito e os Reis Católicos. De coto lhe serviu o Caminho do Mar; de haste o álveo do Tietê.

No século XVII nunca ensarilhada esteve tal arma. Enristou-se esporadicamente e seus pontaços penetrando fundamente no domínio castelhano asseguraram a Portugal a posse das terras de além Paraná, o que permitiria a Alexandre de Gusmão invocar o mais prestigioso uti possidetis consagrado nas decisões do Tratado de Madri.

Como com tanta exação escreveu Pedro Taques, com o prodigioso faro de mateiros: “apesar da falta da geografia, cuja ciência totalmente ignoravam” sabiam os antigos paulistas escolher as melhores vias de penetração “na maior parte dos incultos sertões da América conquistando nações bárbaras”.

O grande tronco das expedições além Paraná foi o Tietê. As referências ao Paranapanema não passam de acidentais, sendo até quase inexistentes.

Dos três grandes eldorados brasileiros um apenas decorreu da navegação fluvial: o do Cuiabá com a sua cabeça de escala de Araraitaguaba. Ninguém ignora que os das Minais Gerais e Goiás procedem de estradas terrestres.

E entretanto poderia o primeiro ter sido revelado pela facílima navegação do S. Francisco e do Rio das Velhas e a contra-corrente em águas plácidas e perfeitamente conhecidas, desde antes da primeira metade do século XVIII. Os jazigos sabarenses estavam, por assim dizer, à mão tente dos povoadores do Norte. Remontando águas plácidas viriam ter à confluência do Sabará e do Guaicui.

Ficaram os criadores com as suas manadas francisquenses a centenas de quilômetros dos jazigos auríferos separados pelo sertão bruto mau grado a fantasiosa afirmativa dos que pretendem haverem os descobridores da região aurífera, havê-los encontrado às ribeiras do Guaicui e do Paraopeba.

Diversos são os autores a quem ocorreu idêntica similitude de idéias sobre a predestinação no papel de São Paulo, dada a sua situação geográfica no planalto, colocado como plataforma de torre dominadora de abruta muralha, quase vertical, de quase um milheiro de metros de desnível sobre o Oceano.

E com a particularidade de que o vencimento desta escarpa era dos mais penosos para os recursos do tempo.

Daí as objurgatórias expressas pelos velhos cronistas e sintetizadas na frase de Frei Gaspar da Madre de Deus quando chamou o Caminho do Mar o “pior caminho que tinha o Mundo”.

Recorda Melo Nobrega em seu belo estudo “História de um rio” várias destas opiniões. Assim enuncia Teodoro Sampaio que o Tietê, “estrada natural ligada ao amplíssimo sistema fluvial permitia atingir o íntimo do Continente”.

O ilhamento dos primeiros povoadores do planalto piratiningano, isolado do Universo pela enorme muralha de Paranapiacaba, quando para Oeste e derrama das terras e o curso dos rios lhes apontava terras infindáveis e acessíveis levou-os à vida aventurosa dos bosques que para eles tinham todos os perigos e o fascínio do incógnito, expende Joaquim da Silveira Santos.

A vocação destes pioneiros, segundo a feliz observação de Sérgio Buarque de Holanda, estaria no caminho que convidava ao movimento e não na sedentarização da grande propriedade rural.

E observa Nelson Wernack Sodré que a geografia local de Piratininga era tácito convite: “O Tietê corria para os sertões”. Secunda-o Cassiano Ricardo em exata e sintética fórmula: “o planalto empurrou o paulista para o interior”. Foi o seu rio o Tietê, “que o fez sertanista e bandeirante”.

Não há dúvida que o apossamento do Guairá, de capital importância no conjunto da expansão bandeirante se fez sem o intermédio do Tietê. Mas serviu ele de esteira à conquista do Mato Grosso, a dos Itatins, consolidada por Francisco Pedroso Xavier no último quartel seiscentista.

Às suas maretas entregaram-se, mais que provavelmente os grandes expedicionários de além Paraná.

Poder-se-á objetar que não é possível afirmar se houveram todas essas bandeiras utilizado o Tietê.

Mas tudo faz crer que sim, por diversos motivos. O Paranapanema correndo bastante mais ao sul é tão áspero de vencimento quanto o seu grande paralelo setentrional.

De São Paulo à barranca longínqua existia até meados do século XVII o deserto. O Tietê já desde 1580 tinha, e a 36 quilômetros de São Paulo, o núcleo de Parnaíba que chegou a tão considerável importância. O de Itu já desde 1609 existia, em terras lavradias. Sorocaba, por volta de 1650 surgia sobre um grande tributário do Anhembí. Eram três verdadeiros viveiros de sertanistas estes três núcleos satélites de São Paulo. Todos no vale do Tietê.

Na demonstração dos diversos caminhos de que os moradores de São Paulo se servem para os rios Cuiabá e Província de Cochiponé, se demonstra quanto o Tietê era a via preferencial, por excelência, para a penetração no recesso das terras centrais.

TAUNAY, E. A. Relatos Monçoeiros. São Paulo: Martins Editora, 1976, p. 13-15.

*Rauan Luiz administra a ótima página Tradição Paulista, no Facebook.

Primeiro Encontro de 2026

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