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sábado, 25 de dezembro de 2021

Tietê, o rio que forjou uma nação.

07/11/2013

RAUAN LUIZ


Compreender uma nação é, em princípio, compreender as incitações, obstáculos e concessões fornecidas por sua região. O cenário encontrado no planalto vicentino parecia ser totalmente adverso a qualquer tipo de colonização e penetração pelo seu interior. O primeiro obstáculo a ser vencido era a Serra do Mar, uma muralha natural de quase mil metros de altura coberta por densas florestas. Contudo, desbravar a Serra do Mar era um convite ao descobrimento de todo o interior da América do Sul, quem fez esse convite foi, é claro, o Tietê. Uma série de adversidades como, por exemplo, o isolamento e a pobreza, incutiram nos paulistas o espírito desbravador, esse mesmo espirito parecia estar presente também no nobre anfitrião dos sertanistas, o Tietê que audaciosamente recusa o mar e vai banhar o Oeste. Aquela velha muralha que parecia fazer do seu interior uma fortaleza isolada do resto do Universo contribuiu mais tarde para que os recém rechegados paulistas se tornassem a face desse isolamento. Integraram-se aos nativos, criaram um idioma, um folclore, uma constituição não escrita, enfim, toda uma cultura e identidade.

Esse é um dos aspectos mais interessantes da história de São Paulo. A geografia da região e as adversidades confluíram para forjar uma nação que construiu o Centro-Sul do Brasil. Sérgio Buarque de Holanda já assinalava que a aversão ao sedentarismo e aos latifúndios foram elementos importantes para a constituição do caráter dos locais, e além disso, fizeram do Tietê uma espécie de presente ao espirito paulista da época. Os diários, relatos e registros que temos dessa época são belíssimos, Afonso de E. Taunay publicou uma coleção deles no seu livro “Relatos Monçoeiros”, transcrevo um trecho da introdução, um convite irrecusável à leitura:

II

PAPEL CAPITAL DO TIETÊ NOS FASTOS DA CONQUISTA OCIDENTAL. — O EPISÓDIO DAS MONÇÕES CUIABANAS ÍMPAR NOS ANAIS DA HISTÓRIA UNIVERSAL. O TIETÊ E O SÃO FRANCISCO. AS PRIMEIRAS NAVEGAÇÕES PARA OESTE. ANHEMBY E TIETÊ.

Criara-se o episódio das monções, incerto com o maior relevo nos anais do bandeirantismo de São Paulo, assumido ímpar originalidade não só em nossos fastos nacionais como nos do Universo.

E, com efeito: em parte alguma do globo as condições geográficas, demográficas, comerciais, coexistiram e associaram-se tão típicas, tão originais, quando as que caracterizaram esta via anfíbia de milhares de quilômetros de imensos percursos fluviais e pequenas jornadas terrestres: a estrada das monções entre os pontos terminais de Araraitaguaba e Cuiabá. Separados por três mil e quinhentos quilômetros da mais áspera navegação com a mínima solução de continuidade constituída por alguns quilômetros do varadouro Camapuan.

Foi esta via dolorosa o recuador, por excelência, das lindes luso-espanholas para o âmago da América do Sul. E em desrespeito ao ajuste inter-ibérico de 1494 definitivamente perempto em 1750 graças ao influxo das bandeiras sobre a resistência e a inércia castelhanas, pequena ao Sul e no Centro do Brasil atual, quase nula e, por assim dizer, inexistente na Amazônia.

Na perseguição do meridiano de Tordesilhas forçada a um deslocamento de vinte graus do litoral paulista às margens do Guaporé o percurso das monções se nos afigura como se enristada lança fora, de irresistível empuxo contra a linha interpolar diplomática estatuída pelo Príncipe Perfeito e os Reis Católicos. De coto lhe serviu o Caminho do Mar; de haste o álveo do Tietê.

No século XVII nunca ensarilhada esteve tal arma. Enristou-se esporadicamente e seus pontaços penetrando fundamente no domínio castelhano asseguraram a Portugal a posse das terras de além Paraná, o que permitiria a Alexandre de Gusmão invocar o mais prestigioso uti possidetis consagrado nas decisões do Tratado de Madri.

Como com tanta exação escreveu Pedro Taques, com o prodigioso faro de mateiros: “apesar da falta da geografia, cuja ciência totalmente ignoravam” sabiam os antigos paulistas escolher as melhores vias de penetração “na maior parte dos incultos sertões da América conquistando nações bárbaras”.

O grande tronco das expedições além Paraná foi o Tietê. As referências ao Paranapanema não passam de acidentais, sendo até quase inexistentes.

Dos três grandes eldorados brasileiros um apenas decorreu da navegação fluvial: o do Cuiabá com a sua cabeça de escala de Araraitaguaba. Ninguém ignora que os das Minais Gerais e Goiás procedem de estradas terrestres.

E entretanto poderia o primeiro ter sido revelado pela facílima navegação do S. Francisco e do Rio das Velhas e a contra-corrente em águas plácidas e perfeitamente conhecidas, desde antes da primeira metade do século XVIII. Os jazigos sabarenses estavam, por assim dizer, à mão tente dos povoadores do Norte. Remontando águas plácidas viriam ter à confluência do Sabará e do Guaicui.

Ficaram os criadores com as suas manadas francisquenses a centenas de quilômetros dos jazigos auríferos separados pelo sertão bruto mau grado a fantasiosa afirmativa dos que pretendem haverem os descobridores da região aurífera, havê-los encontrado às ribeiras do Guaicui e do Paraopeba.

Diversos são os autores a quem ocorreu idêntica similitude de idéias sobre a predestinação no papel de São Paulo, dada a sua situação geográfica no planalto, colocado como plataforma de torre dominadora de abruta muralha, quase vertical, de quase um milheiro de metros de desnível sobre o Oceano.

E com a particularidade de que o vencimento desta escarpa era dos mais penosos para os recursos do tempo.

Daí as objurgatórias expressas pelos velhos cronistas e sintetizadas na frase de Frei Gaspar da Madre de Deus quando chamou o Caminho do Mar o “pior caminho que tinha o Mundo”.

Recorda Melo Nobrega em seu belo estudo “História de um rio” várias destas opiniões. Assim enuncia Teodoro Sampaio que o Tietê, “estrada natural ligada ao amplíssimo sistema fluvial permitia atingir o íntimo do Continente”.

O ilhamento dos primeiros povoadores do planalto piratiningano, isolado do Universo pela enorme muralha de Paranapiacaba, quando para Oeste e derrama das terras e o curso dos rios lhes apontava terras infindáveis e acessíveis levou-os à vida aventurosa dos bosques que para eles tinham todos os perigos e o fascínio do incógnito, expende Joaquim da Silveira Santos.

A vocação destes pioneiros, segundo a feliz observação de Sérgio Buarque de Holanda, estaria no caminho que convidava ao movimento e não na sedentarização da grande propriedade rural.

E observa Nelson Wernack Sodré que a geografia local de Piratininga era tácito convite: “O Tietê corria para os sertões”. Secunda-o Cassiano Ricardo em exata e sintética fórmula: “o planalto empurrou o paulista para o interior”. Foi o seu rio o Tietê, “que o fez sertanista e bandeirante”.

Não há dúvida que o apossamento do Guairá, de capital importância no conjunto da expansão bandeirante se fez sem o intermédio do Tietê. Mas serviu ele de esteira à conquista do Mato Grosso, a dos Itatins, consolidada por Francisco Pedroso Xavier no último quartel seiscentista.

Às suas maretas entregaram-se, mais que provavelmente os grandes expedicionários de além Paraná.

Poder-se-á objetar que não é possível afirmar se houveram todas essas bandeiras utilizado o Tietê.

Mas tudo faz crer que sim, por diversos motivos. O Paranapanema correndo bastante mais ao sul é tão áspero de vencimento quanto o seu grande paralelo setentrional.

De São Paulo à barranca longínqua existia até meados do século XVII o deserto. O Tietê já desde 1580 tinha, e a 36 quilômetros de São Paulo, o núcleo de Parnaíba que chegou a tão considerável importância. O de Itu já desde 1609 existia, em terras lavradias. Sorocaba, por volta de 1650 surgia sobre um grande tributário do Anhembí. Eram três verdadeiros viveiros de sertanistas estes três núcleos satélites de São Paulo. Todos no vale do Tietê.

Na demonstração dos diversos caminhos de que os moradores de São Paulo se servem para os rios Cuiabá e Província de Cochiponé, se demonstra quanto o Tietê era a via preferencial, por excelência, para a penetração no recesso das terras centrais.

TAUNAY, E. A. Relatos Monçoeiros. São Paulo: Martins Editora, 1976, p. 13-15.

*Rauan Luiz administra a ótima página Tradição Paulista, no Facebook.

A riqueza da cultura do vinho em São Paulo

23/05/2016

PAULO EMENDABILI


Driblando o garrafão.

São Paulo, entra ano e sai ano, torna-se um terroir plausível para o vinho fino tinto de mesa.

É de todos sabido que para a grande maioria dos tomadores tupiniquins de vinho nacional, vinho bom é o vinho de sabor docinho e suave.

Para mim, esse tipo de vinho é um suco roxo que sai do garrafão e que só serve para manchar definitivamente a toalha de mesa.

São Roque, infelizmente, ganhou a pecha da terra do “vinho ruim”, feito com as uvas americanas (labruscas: Isabel, Bordô etc), dentre os apreciadores dos vinhos finos tintos, brancos, claretes e roses, feitos com as uvas europeias (viníferas: Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Merlot, Shiraz etc).

Contudo, São Roque, que contava com 150 vinícolas e tinha uma Festa do Vinho em seu calendário com esse tipo de vinho ruim, tem hoje cerca de 13 empresas sobreviventes, sendo que a celebração do vinho vem depois daquela respectiva à colheita da alcachofra, que acontece em outubro.

Em Jundiaí, outro município de vinicultura, resistem quatro vinícolas, todas de vinho ruim, produzindo marcas conhecidas como Chapinha e San Tomé, além de alguns corajosos produtores artesanais.

Mas essa realidade vem mudando, ano a ano.

Ao contrário do que muita gente acredita, a origem do vinho no Brasil não é e nunca foi gaúcha. É paulista, iniciada por Braz Cuba na Capitania de São Vicente. Depois, colonos portugueses iniciaram o plantio das vinhas em Taubaté, que tinha clima mais favorável.

Somente no século 19, após a devastação dos vinhedos europeus, sobretudo os franceses, pela filoxera, os imigrantes italianos introduziram no Brasil as uvas americanas, que são praticamente imunes à peste, e que se adaptaram melhor na região que as europeias, sabendo eles que estas uvas gerariam um vinho menor diante das vinhas europeias, vinho este utilizado praticamente para o consumo familiar e local.

Saiu daí o chamado “vinho de mesa”, açucarado, com gosto de suco de uva, mas que domina 75% do consumo nacional, gerando renda ao produtor e ao vinicultor, mas que mistura, mais das vezes, aguardente, açúcar e corante, o que garante ao infeliz que o tomar, embriaguez fácil e ressaca difícil de curar.

Mas que ninguém pense que no Rio Grande do Sul somente se produz os vinhos finos de mesa, pois que lá se encontram também os produtores dos rótulos Chalise e Sangue de Boi, gerando com esse tipo de vinho, ruim, receita suficiente para as muitas vinícolas gaúchas, garantindo lucros, enquanto paralelamente ganham prestígio e apoio da mídia com seus vinhos refinados.

A produção de vinhos no Brasil, até muito pouco tempo atrás, seguia um padrão de tradição oral, ou seja, a técnica passava de pai para filho, na própria vinícola, tal como herdada dos avós europeus. Não havia enólogos no Brasil.

Acreditava-se, e firmemente, que a uva devia ser colhida no verão, tal como na Europa. Só que na Europa, o verão, nos arredores do paralelo 33, é seco e quente. Aqui é quente e úmido, inclusive na Serra Gaúcha.

Resultado: A uva colhida no verão brasileiro fica cheia de água, o teor de açúcar cai e, ao final do processo, se tem um vinho com pouco álcool, com os taninos diluídos, com baixa acidez, ou seja, uma porcaria de vinho.

Foi indo assim, até que alguém teve a ideia de inverter o ciclo vegetativo da uva vinífera europeia em São Paulo. Podar a uva duas vezes, uma em janeiro, e outra em agosto. A poda de agosto faz com que surjam os ramos produtivos. A poda de janeiro faz com que os brotos se formem em fevereiro, floresçam em março, para os cachos começarem a se formar em abril, para ser a uva colhida em junho ou julho.

Mas essa “pegada” não se aplica ao Rio Grande do Sul. O inverno de lá, além de úmido, é frio e escuro, o que diminui a fotossíntese e limita a maturação da uva. E não se aplica também ao Nordeste, dado o excesso de calor, a secura e a extrema luminosidade, que “queima” a uva.

Contudo, a manobra cai como uma luva para São Paulo. Aqui o inverno é similar ao verão europeu, quente e seco.

Após muitas pesquisas nas suas terras de São Roque, foi isso que Cláudio Góes, neto de uma linhagem centenária de vitivinicultores, percebeu.

Góes, sem abrir mão do vinho ruim, o que lhe garante sobrevivência, passou a investir pesadamente no cultivo de uvas europeias, notadamente as cepas Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, ganhando com seus vinhos, medalhas de ouro, não aqui em São Paulo, mas em degustações às cegas, onde não se sabe a origem do vinho, em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul...

No momento, são muitos os investidores para que São Paulo seja o maior consumidor nacional e produtor de vinhos finos tintos.

Neste empenho se encontram lado a lado a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), além de sindicatos patronais e secretarias de governo – o que incluiu até a redução pela metade do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) sobre o vinho paulista desde 2007.

O Instituto Federal de São Paulo, campus de São Roque, abriu o primeiro e único curso de Viticultura e Enologia em território paulista.

Por seu lado, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) cartografou e mapeou quatro regiões paulistas que podem produzir vinhos superiores a todos os demais de origem nacional, delimitando “polígono vitivinícola paulista”, que inclui São Roque, sendo que Jundiaí ficaria responsável por vinhos mais leves e a região de Franca a São Carlos produziria a variedade Shiraz, enquanto a de Jales produziria cepas de Sauvignon Blanc, indicada para espumantes brancos.

Outra região mapeada foi designada “terras altas paulistas” e, otimizando a alternância entre o calor e o frio da Serra da Mantiqueira, a poder se produzir excelentes cepas de Cabernet Sauvignon.

Ademais, não se usam mais leveduras indígenas (selvagens) para fermentar a uva, e sim as importadas, selecionadas, que permitem que se module o desenho do vinho que se quer obter.

Porém, a escassa produção de uvas é um dos grandes gargalos para a produção de vinhos finos, o que será superado com uma década de crescimento das plantações paulistas, destacando-se, neste tocante, a cidade de São Miguel Arcanjo, na região de Itapetininga.

São Roque desperta de longo sono vinífero. Investimentos no enoturismo são necessários e uma política séria e capaz de turismo será capaz de chamar para o bom vinho de São Roque, milhares e milhares de turistas, provindos da maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo, distantes apenas 59 quilômetros - São Paulo!

São Roque tem topografia e um jeitão de Piemonte, é lindinha, e foi a terra de escolha de Mário de Andrade para passar os seus fins de semana.

Eu, particularmente, amo São Roque. A cidade vem se empenhando em produzir chocolates (a fábrica da Hersheys está lá), uma miríade de produtos artesanais à base da alcachofra, e várias adegas e excelentes restaurantes à beira da lindíssima Estrada do Vinho.

Em janeiro e fevereiro, a atração é a colheita da uva e a tradicional pisa no lagar para a fabricação do vinho, quando o município chega a atrair três mil visitantes em um fim-de-semana.

A Quinta do Olivardo oferece o ritual do “Vinho dos Mortos”, tradição portuguesa de enterrar as garrafas de vinho para resgatá-las em fevereiro, memorando o que os portugueses fizeram para defender seus vinhos diante das invasões napoleônicas.

Todo este esforço quer reverter o consumo de vinhos no país, que é de apenas 1,8 litro por ano, enquanto no Chile esse número sobre para 14,7 litros, e na Argentina, em média, 31,6 litros por argentino, ao ano.

E que ninguém subestime São Paulo. Em uma década, seremos os maiores produtores de vinhos finos, de grande qualidade tecnológica e sensorial, sendo que já somos os maiores consumidores e mercado.
São Paulo é São Paulo...

*O autor é advogado, médico e dentista. Foi candidato a vereador em São Paulo, membro do MSPI e da Frente Bandeirante

Nova Presidência do MSPI

Informamos a todos que a partir da presente data assume a presidência do MSPI - Movimento São Paulo Independente, o senhor Daniel Simões. O ...